Opinião: A A.R. está em looping!

“Looping” significa, na acepção que aqui assumo, a repetição, repetição de uma ocorrência; ou começar a andar em círculos …

Passei hoje parte do meu dia de confinamento a ver televisão: canal 219.

Vi uma audição da Ministra da Saúde e assisti, em directo, à discussão do debate sobre a renovação do Estado de Emergência, com o Ministro da Administração Interna.

Tanto a audição como debate se transformaram, rapidamente, em exercícios deploráveis de passa culpas, muitas vezes com os não eleitos (ministros e secretários de estado) a responderem com arrogância aos eleitos (deputados da nação) e estes a utilizar linguagem pouco adequada a uma transmissão televisiva sem bolinha…e outros a caírem em cima destes com muita agressividade.

No debate percebi que os Partidos estão cada vez mais acantonados nas suas posições (imagens de marca), sem perceberem todos que sem Estado de Emergência, por via constitucional, não pode haver restrições à pseudo liberdade que nos dão, vg o tal confinamento; e que não havendo restrições objectivas, o resultado é a aniquilação absoluta do Serviço Nacional de Saúde (de que tanto falam) com a ocorrência de mortes dos nossos concidadãos, sem nenhum controle.

Ora,

Assistir, nesta triste situação pandémica em que nos encontramos, a deputados -seja de que partidos forem- a votar contra ou, até, a absterem-se, o instrumento que permite, em teoria, salvar um sem número incalculável de vidas humanas, independentemente das razões por que o façam, é digno de que os portugueses o anotem porque, em eleições futuras, isso deve passar a ser um critério importante: quem é que defende o Povo, afinal?

Do mesmo modo que se devem encontrar critérios que não permitam o arrastamento de certos dinossauros por ali, nos corredores, onde tudo se contamina.

… A ideologia -ou teimosia, ou demagogia, ou populismo- não pode ser levada a estes extremos, quando tudo está em falência absoluta…os deputados foram eleitos para cumprir funções de Estado e não podem alhear-se do sofrimento.

Até as estrelas têm limitações e, de vez em quando, deixam de brilhar.

Os deputados que têm tido estes comportamentos, na minha opinião, não demonstram ter discernimento, nem pensam, nem expressam a vontade do Povo que os elegeu, porque ninguém com bom senso acredita que, nos dias de hoje, alguém entenda que, primeiramente, não esteja -agora- a saúde dos portugueses e, sequencialmente, as suas vidas.

E só amanhã a continuidade da guerrilha.

O tal looping de que eu falo tem a ver com o facto de ser notório que sem as famosas Comissões de Inquérito -que não são coisa nenhuma, nem esclarecem coisa nenhuma, nem têm consequência nenhuma- os deputados não têm muito que fazer, na sua maioria, nem produzem seja o que for… e, portanto, arrastam as discussões cumprindo tabelas concebidas para fabricar trabalho…inexistente, dando expressão ao arrastamento de discussões falhas de argumentação diferenciada, que entram em círculo notório.

– demoram tempos infinitos a fazer baixar e subir os projectos e as propostas, como se a actividade legislativa fosse um carrossel da feira popular;

– legislam, legislam, legislam sobre questões que se sobrepõem a outras já contempladas no ordenamento português, provocando um descalabro completo no funcionamento dos Tribunais;

– remendam, remendam, remendam, dando satisfação, só, aos grupos de interesses a que pertencem e eles são muitos e poderosos;

– recomendam, recomendam, recomendam, sobre tudo e sobre coisa nenhuma, a governos que não lhes passam cartão, nem são penalizados por isso;

– visitam, visitam, visitam o dito Portugal interior e os respectivos círculos eleitorais, restringindo, todavia, essas visitas aos seus correligionários;

– cumprem protocolos de estado que, talvez, lhes venham a dar azo a vacinação prematura.

Aliás,

Sobre a existência efectiva -ou não- de trabalho para tanta gente (somemos os assessores, os secretariados e, e, e) basta perceber que o regimento se mantém arcaico e que a actividade de fiscalização do governo se transformou num filme dantesco em que os governantes chegam a estar mais do que uma vez por semana na Assembleia da República, a discutir as mesmas coisas com deputados que chegam a entrar mudos e a sair calados, sem terem quase espaço para trabalhar.

Mais fácil seria ter o governo, também, a trabalhar naquele espaço rico.

Os tempos são de modernidade, de flexibilidade, de competência e o que se nos oferece ver nas televisões fica a anos luz do desempenho expedito de outros Parlamentos…imaginemos o que seria tal inércia aplicada às nossas empresas privadas.

Será que os nossos deputados não vêem?

Certo é que, neste rame, rame, consentido,

Demoram tempos infinitos -e dificultam, atrapalhando e manipulando- a pouca interação com o Povo que elege e paga tudo, só possível pela via das famigeradas Petições!

O tal looping também é bem expresso na informação que a A.R. produz e que nos dá:

– os números (sempre aos milhões disto e daquilo) não esclarecem ninguém, nem são credíveis;

– e quando são credíveis -como os fornecidos pela Utau- são vergonhosamente aproveitados por todos para explicar tudo e o seu contrário;

– igualmente não são credíveis todas as moradas indicadas pelos deputados para receberem mais benesses, como se vai tendo conhecimento;

– do mesmo modo que não se percebe se o Covid entrou na própria Assembleia e quantos funcionários estão infectados e quantos deputados…

Não quero ser injusto e afirmo, por isso, que estão lá alguns bons deputados e eu conheço alguns; …mas poucos, muito poucos.

Mas tem mesmo que começar-se a levantar a voz!

Por isso eu penso que,

!… Não só se deve, urgentemente, discutir a diminuição drástica do número dos deputados, como se deve, com clarividência, estabelecer-lhes um estatuto que os dignifique, acabando com a actual banalização (e perpetuação) da função …!

É que, para além do mais, este é um Órgão de Soberania, inerente ao próprio conceito de Democracia que, no actual estado das coisas, se vai degradando a olhos vistos.

Luís Pais Amante

4 COMENTÁRIOS

  1. Caro Dr.
    Da minha parte, compreendo a sua inquietação! Eu também penso muito sobre a relação custo/benefício resultante do tipo de ação conseguida…
    Uma grande parte encontrou ali o seu modo de vida, e não quer outro.

    Quem, até 1974, viveu ao nível de uma significativa subjugação, não pode compreender que, em liberdade, seja possível tanto desconcerto originador de tanta contra-eficácia!
    Tudo o que alguém faz, à “posteriori”, está sempre mal feito. Não há algo que algum considere ter sido bem conseguido e obtido em ambiente colaborativo. O mote é: ou está bem porque a ideia foi minha , ou o resultado corresponde à pior solução possível. Com “tanto esperto” nalgumas cabeças, é pena que no exercício das suas formais funções não o ponham ao serviço de todos em tempo oportuno! …
    Foi para isso que foram idealizadas tais funções!
    Entristece-nos sentir que o lema seja: Quanto pior, melhor!
    Pela minha parte, agradeço a sua preocupação.
    As minhas felicitações
    ASeCosta

  2. Meu caro Luís
    Este artigo faz-me lembrar que no 25 de Abril eu tinha 15 anos e que alguns dos deputados já lá estavam.
    Sendo assim, a conclusão que eu tiro é que deve ser bom e motivador por um lado, por outro não tiveram eventualmente outras propostas para outras funções e/ ou são adversos à mudança.

    Nos dias de hoje a mudança acontece praticamente todos os dias e os deputados que o nosso povo não elegeu nem na maioria dos casos ouviu falar opta por trabalhar com a mesma metodologia de à quarenta e sete anos porque será ?

    A metodologia é eficiente,

    São eficientes e produzem legislação de forma rápida e coerente.

    Estão muito próximos dos eleitores e ajudam e colaboram na resolução dos seus problemas

    São pessoas que têm muita experiência em situações concretas na vida do tecido empresarial

    Não são nada carreiristas

    São ambiciosos que olham para o pais no longo prazo e aceitam objectivos desafiantes

    Não querem controlar nada as alavancas da economia e permitem que as empresas e os sejam determinados e que o País seja um dos mais dinâmicos e produtivos da Europa
    Se não é isto tudo que eu disse…..

    Desculpa Luís mas senão é isto….
    Vou Dormir que devo estar muito cansado

    Um abraço

  3. Luís Amante é uma voz atenta, que não se
    acomoda na aceitação de certos comportamentos
    políticos que não trarão de maneira nenhuma proteção e bem estar ao coletivo.
    É uma voz que inspira o debate para mudar o que deve ser mudado. Uma voz que sacode a negligência e o descuido para a causa pública! Uma voz que deve sempre estar presente. Parabéns

  4. Como era previsível, o consenso alargado que, há um ano, se viveu na AR quando da discussão e votação do 1º confinamento, iria ser sol de pouca dura.

    A sucessão de confinamentos quase generalizados das pessoas, com a inerente travagem da economia, trouxe consequências sociais que têm vindo a avolumar-se cada dia que passa. Todos conhecemos uma ou mais pessoas que ou perderam os seus empregos, ou tiveram que encerrar o seu pequeno comércio ou que viram agravadas, infelizmente de forma irreversível, as suas doenças.

    Tudo isto causa incerteza, medo, desespero e descrença no futuro, até porque as perspectivas de recuperação não se afiguram fáceis. É a crise.

    Poder-se-á dizer que a crise é geral, a nível internacional, e que, desta vez, não foi directamente provocada por erros e disparates nossos, mas sim pelo bichinho que por aí anda à solta nas suas muitas variantes. Admitamos.

    Evidentemente que não é fácil governar em situações de pandemia generalizada, como a que temos vindo a vivenciar, mas alguns erros e disparates foram cometidos, também pela AR.

    Mas é inegável que alguma da legislação de emergência que tem vindo a ser aprovada apresenta imperfeições, falhas e incongruências que não podiam, nem deviam, ter passado pelo crivo crítico dos deputados. E a prova são as constantes alterações, aditamentos e correcções que se sucedem a essa legislação.

    Será que os nossos representantes estão ali meramente à espera que o governo lhes apresente a papinha toda feita para eles, sem prévio debate com espírito crítico e construtivo, aprovarem depois de fazerem uns meros discursos de circunstância, de acordo com as respectivas conveniências partidárias?

    Os nossos deputados não sentem as necessidades nem as ansiedades das pessoas que supostamente representam e que, desejávelmente, devem ser contempladas na legislação que se propõem aprovar? Não compreendem que legislação confusa e atabalhoada – que, com todo o respeito, porventura nem eles próprios conseguem entender – só contribui para alimentar a confusão e a descrença das pessoas?

    A verdade é que começa a crescer entre as pessoas o sentimento que a actividade da AR está num impasse, às voltas sobre si própria.

    Os deputados são eleitos por nós e confiamos-lhe o exercício da função legislativa e do controlo da actividade do governo. Mas também temos o direito de escrutinar a forma como exercem as funções que lhes delegamos, criticando construtivamente sempre que seja necessário.

    Só assim poderemos ter um sistema democrático eficaz no qual todos consigamos rever-nos com agrado.

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