As palavras que descem da Serra: A Cozinheira de Castamar, Fernando J. Múñez

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1952

Hoje as palavras que vão descer da Serra vêm aqui de perto, vêm de Espanha. Saíram do teclado de um jovem, Fernando J. Múñez.

Há muito tempo que os meus olhos não corriam sobre romances envolvendo comida. Com franqueza não consigo situar no tempo essa moda. A minha idade já me permite ter do tempo um noção tão elástica que a realidade parece saída de uma daquelas casa de espelhos das feiras a que nunca fui, ou de uma pintura de Dali, em que tudo se pode esticar em qualquer direcção desde que sim… lembro-me de ler muitos desses, sobretudo italianos. Este agradou-me pelo ar fresco que trouxe à minha semana, pela companhia nas duas noites insones que aguentou, pelo enredo fantástico (um texto dramático sem excessos), pelas personagens bem construídas e integradas no contexto histórico e social. As descrições das comidas estão longe das modas de outros tempos, que erotizavam os pratos. Estas são funcionais, no sentido que permitem demarcar a excelência da cozinheira, e explicar o interesse do Senhor, porque toda a gente sabe que o caminho para o coração de homem passa pelo estômago… que vos caia tão bem como a mim A Cozinheira de Castamar.

Fernando J. Múñez

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A Cozinheira de Castamar

“- Se há algo contra o qual o homem deve lutar acima de muitas coisas é contra si mesmo- dissera-lhe o pai em inúmeras ocasiões-, pois todo aquele que deseja ser um livre pensador enfrenta uma tarefa árdua e primigénia: desterrar de si mesmo as ideias que lhe foram inculcadas tomando como autoridade o costume e não a análise exaustiva da razão.”

Sinopse

A Cozinheira de Castamar é um romance onde o drama e a intriga são manuseadas de forma tão envolvente que a leitura pode ser um problema difícil de contornar…

A história desenrola-se na Espanha do seculo XVIII, logo depois da Guerra da Quádrupla Aliança.

No dia de 10 de outubro de 1720 Clara Belmonte, menina de bem caída em desgraça depois da morte heroica de seu pai, o dr. Belmonte, dá entrada ao serviço na cozinha de Castamar dominada, como todo o resto da casa, pela gélida senhora Úrsula Belenguer. Úrsula Beleguer é apenas a governanta, baseia o seu poder no conhecimento, não no científico, mas no de segredos. Conhece os segredos terríveis de todos os que possam minar o seu poder e mantem-nos sob uma disciplina férrea.

Clara Belmonte foi educada com esmero, sendo culta até em áreas tradicionalmente destinadas a homens, para poder ocupar o seu lugar numa sociedade absolutamente estratificada. Não tem título, mas a mestria profissional de seu pai permitiu acumular a fortuna que lhe poderia garantir um bom casamento. A morte prematura do pai e as manipulações do seu tio acabam com este sonho e deixam-na refém de um pavor irracional a espaços abertos que a levam a desmaiar sempre que se encontra na rua.

Em Castamar o luto pela senhora duquesa, dona Alba, morta de forma bizarra pelo seu cavalo, dura há já nove anos. Cumpre-se anualmente um ritual por ela instituído de fazer uma grande festa no seu aniversário, em que até os reis estão presentes. As iguarias saem da cozinha da sra. Escrivá, a cozinheira chefe, que neste ano de 1720 vai ser despedida na véspera da festa por se entregar a prazeres indecorosos na casa e ainda obsequiar o seu execrável amante com umas belas garrafas de vinho da adega do Senhor. Clara, criatura que deu nas vistas da sra. Berenguer por detestar a sujeira (limpou a cozinha imunda na primeira noite que passou na propriedade de cima a baixo, tendo organizado o espaço, os utensílios e os produtos, raspado mesas, fogões e fornos) vê-se assim catapultada para as luzes da ribalta e sai-se maravilhosamente. O caracter de Clara granjeia-lhe a vigilância de falcão e a desconfiança da governanta.

Dona Úrsula é uma mulher sofrida, foi saco de pancada dos dois homens da sua vida, o pai, primeiro, e o marido, depois. Quando se viu livre do marido, por intervenção de Dona Alba, jurou que nunca mais ninguém mandaria em si, por isso se tornou o bloco de gelo que o calor do sr. Melquiades vai demorar eternidades a descongelar.

A partir do início dos festejos começa-se a entrever a intriga em marcha para destruir Castamar e o seu senhor. Os motivos são desvendados lentamente, na forma de analepses, e a perfídia de Dom Enrique cresce há medida que o tempo passa.

As personagens são construídas com absoluto rigor cultural, social e humano. Dom Gabriel, o irmão negro de Dom Diego, tem o orgulho e a  arrogância de um Castamar, mas a inteligência de um homem que conhece “o seu lugar” na sociedade estratificada. D. Alfredo e D. Francisco, amigos-irmãos de D. Diego, albergam nas suas almas sonhos e medos absolutamente coerentes. As mulheres envolvidas na trama são construídas com base nos modelos históricos, destoam D. Mercedes, mãe adoptiva de um negro, que o ama como ama o seu filho biológico e a menina Belmonte, que, sendo educada, não dispensa os seus tachos, e, descendo nos estratos sociais, continua a comportar-se como se estivesse num salão nobre, mesmo estando numa cozinha imunda, frente a mulheres e homens boçais.

No final o bem quase prevalece sobre o mal, o amor prevalece sobre tudo e… viveram felizes (quase) para sempre…

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

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