Editorial: Pensar bem, para executar melhor!

Bem sei que a temática tem algo de obtuso. Ainda assim, o conteúdo não é opinativo, mas a simples listagem dos principais raciocínios que a disciplina filosófica da Lógica catalogou como incorretos ao longo da história do pensamento e que designou de falácias, argumentos enganadores, que aparentam mostrar as razões fundamentadoras de uma tese, quando, na realidade, não o fazem. Pode ser um ‘borda d’água’ cívico e político de utilidade e alcance nos tempos que se avizinham, ainda que tal intuição resulte de um mero exercício generalizador de observação empírica. Parece que pode vir a ser necessário. Queiram a previdências e a providência que não! Em tempo de vacina, pode ler-se como preventivo de um mínimo de sanidade social.

Num argumento construído por «generalização precipitada», extraímos uma conclusão geral, que inclui casos de que não tivemos experiência, a partir de um conjunto de premissas referentes a alguns casos de que já tivemos experiência. Trata-se de uma tipologia de raciocínio indutivo, no qual transformamos, sem ‘autorização intelectual’, o ‘particular’ em ‘geral’ e tomamos a ‘parte’ pelo ‘todo’. Tradução prática: os daquele «quintal» são «desta maneira», só e apenas porque são daquele «quintal», quando, na verdade, conhecemos apenas um ou dois «agricultores» e o que temos de negativo com eles é qualquer coisa ligada ao «não porreirismo», quando o que está em escrutínio é tudo menos as «pessoas» e o seu «lado porreiro».

A falácia da «amostra não representativa» baseia-se num conjunto de premissas referentes a alguns acontecimentos observados no passado, para inferir uma conclusão acerca de um acontecimento futuro. Tradução prática: popularmente é hábito formular-se a partir da frase ‘as pessoas acham que’, donde se segue uma teoria universalizável que mais não é que o pensamento dos mais próximos, por vezes poucos. Resulta regularmente nas conclusões dogmáticas iniciadas com as expressões ‘toda a gente’ e ‘ninguém’. Ocasionalmente, talvez algumas sondagens possam navegar nestas águas. Num lugar de densidade baixa, decidir com base em «amostras reduzidas», prescindindo das pessoas, faz mirrar aquilo que podia ser virtuosamente pequeno, transformando-o em viciosamente irrelevante.

Os argumentos por «falsa analogia» são aqueles que se baseiam na semelhança entre coisas diferentes. A mensagem que pretende passar é que se duas coisas são semelhantes em vários aspetos relevantes, serão igualmente semelhantes noutros aspetos ainda não estudados com profundidade. Com base em… coisa nenhuma que não a moderna e oculta ciência da ‘achologia’. Tradução prática: tratar como igual aquilo que é diferente é profundamente injusto, constitui um exercício intelectualmente preguiçoso, populisticamente confortável, e apresenta-se como uma renúncia objetiva do exercício prático do discernimento e da decisão.

A falácia do «apelo à autoridade» é usada no sentido de defender uma ideia que uma pessoa não está habituada [não é capaz de] a defender pelos seus próprios meios. Logo, passa a ser assim, porque alguém de reconhecida competência ou legítimo poder disse. E só por isso… Tradução prática: não raras vezes abdicamos de pensar em favor do seguidismo do pensamento de alguns ‘gurus’, sem a consciência da manipulação de que estamos a ser alvos. Não lhes interessa, em regra, a delegação de poderes ou a promoção de pessoas, a aposta na formação ou na cultura, porque isso equivaleria ao risco de ‘perda’ do ascendente e ao desmoronamento do séquito de seguidistas acríticos. Do lado das «autoridades», esta falácia pode traduzir-se na regra da retórica que, algures no discurso, emita a seguinte ‘sugestão interior’: «‘aqui’ há que gritar, dado que o argumento é fraco!»

O argumento do «apelo à ignorância» pretende declarar algo como falso por ninguém ter conseguido mostrar que é verdadeiro, ou vice-versa. Recorre-se ao facto de ninguém saber nada sobre uma determinada ideia [nem procurar saber], para concluir que o melhor é fazer o inverso disso que está a ser apresentado por alguém. Tradução prática: aqui nunca se fez tal coisa, logo ‘não é para aqui’, nem ‘aqui irá resultar’, porque as pessoas, a quem nada perguntámos, não querem. Quem disse? ‘Nós’!

A falácia da falsa relação causal [depois disso, logo causado por isso] traduz um erro de análise que consiste em concluir uma relação de causa e efeito entre dois acontecimentos simultâneos ou sequenciais no tempo. E que, na realidade, nada [ou pouco] têm que ver um com o outro. Tradução prática: a típica e a popular relação entre a ‘estrada da beira’ e a ‘beira da estrada’…

O argumento da «petição de princípio» (da circularidade) ocorre sempre que, de modo mais ou menos disfarçado, concluímos aquilo que já antes dissemos ou insinuámos, sem acrescentar nada de novo ao conhecimento que já se possui sobre determinado tema. Tradução prática: a chamada ‘pescadinha de rabo na boca’ ou a tendência para termos um armazém de ‘dossiers’ de estudo e, ainda assim, continuarmos a ‘estudar’ sem executar. Em nome da prudência e do «momento certo»…

A falácia do «falso dilema» são aqueles argumentos que armadilham um raciocínio, a ponto de parecerem existir somente duas possibilidades de caminho, omitindo, com intenções de agenda, todas as ‘terceiras vias’ igualmente plausíveis. Tradução prática: «este é o caminho/esta é a questão!» Em que difere de outros/outras? Em nada de substancial, que não a paternidade/maternidade da ideia. E esse é frequentemente o [único] critério de adesão.

O argumento da «derrapagem» («bola de neve») ocorre sempre que se apresentam como verdadeiras um conjunto de condições que, na verdade, são falsas. A tendência é para que a fragilidade argumentativa aumente [derrape] para níveis de insustentabilidade. Tradução: aquilo que hoje abominamos, vamos acabar por admitir amanhã, uma vez ‘normalizado’.

A falácia do «boneco de palha» (ou «espantalho») ocorre sempre que distorcemos ou caricaturamos as ideias do nosso interlocutor para que pareçam menos plausíveis, ridículas até, e sejam ‘escutadas’ como ‘obviamente’ falsas. Tradução: «não liguem ao que ele diz, porque ele é ‘assim’»… E se é ‘assim’, o que diz não interessa. Só porque é assim.

O argumento do «apelo à piedade» tem que ver com a teatralização de um cenário comunicativo por parte do comunicador, para que o auditório tenha ‘pena’ de si e adira ao seu pensamento, ou com a ‘exploração’ da emocionalidade do auditório. Tradução: uma das modas atuais é a exemplificação «como diz o Papa Francisco», sendo que a ‘citação’ doi habitualmente lida no título de uma rede social.

A falácia «ad hominem» é um ataque pessoal e é um raciocínio incorreto porque ataca a pessoa em vez da ideia. Tradução prática: nunca acontece[u], pelo menos por cá!!!

O argumento do «ad populum» [«apelo ao povo»] consiste em apelar à opinião da maioria (do povo, no latim), para defender a verdade ou a justeza de determinada circunstância. O problema é a verdade e a justiça não dependem simplesmente da opinião da maioria. Tradução prática: Entroncam aqui muitas questões contemporâneas de demagogia e manipulação.

Finalizando, os três princípios sustentadores da Lógica Clássica: princípios da identidade, da não contradição e do terceiro excluído. Traduzindo: o que é é, o que não é não é [o ser é e o ‘não ser’ não é]; uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo; uma coisa ou é verdadeira ou é falsa. Atualizando: do que existe e é um facto, ninguém pode simplesmente dizer que não existe [e vice versa]; determinada realidade não pode ser uma evidência hoje e deixar de o ser amanhã; a verdade e a mentira são limiares não negociáveis na vida pública.

Quem pensa mal, dificilmente executa melhor! As palavras expostas são para bom consumo onde e se tiver de ser…

Luís Francisco Cordeiro Marques

1 COMENTÁRIO

  1. A falta do pensamento crítico baseada na inteligência multifocal leva a sociedade a aceitar e repetir pensamentos e modelados. Tambem o facilitar dos processos em nada ajuda a ter pensamento crítico. Exemplo do provérbio, não dês peixe, ensina a pescar.
    Deixar de ser individualista e ser mais participativo socialmente poderá ser o ponto de viragem.
    Obrigado pelo excelente artigo

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