Covid-19: Museus do país perderam 70% a 80% dos visitantes

Os museus do país perderam entre 70 e 80 por cento dos visitantes, devido às restrições impostas pela pandemia, uma “diminuição drástica”, revelou hoje, em Lisboa, o presidente do Observatório Português de Atividades Culturais (OPAC), José Soares Neves.

José Soares Neves, director do Observatório Português das Actividades Culturais

 

O responsável falava no segundo dia da conferência internacional ‘online’ sobre museus e responsabilidade social, organizada pela Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), para refletir e partilhar experiências sobre o contributo dos museus na promoção da mobilização dos cidadãos para um futuro pós-pandemia.

“Os visitantes ficaram reduzidos praticamente só aos nacionais”, indicou José Soares Neves, sobre o universo de 660 museus do país, dos quais 25 são tutelados pelo Ministério da Cultura, através da DGPC.

Na sua intervenção, sobre “Estudos de públicos em Portugal: reflexões e próximas etapas no contexto pós-pandémico”, o presidente do OPAC disse que, neste domínio, Portugal “chegou tarde”, com o primeiro grande estudo a realizar-se em 2014, mas que a caracterização dos públicos “é também de grande interesse para os profissionais e políticas públicas do setor”.

Apontou que, desde 2015, os estrangeiros – com um perfil qualificado, de escolaridade elevada e das novas classes médias – tornaram-se a maioria do público dos museus do país, realidade que mudou desde o impacto da pandemia.

Por outro lado, apontou que apenas um quarto da população portuguesa visitou um museu nos últimos 12 meses, “uma média que fica longe da europeia”, avaliou.

Na opinião do presidente do OPAC, neste contexto da pandemia, “é muito importante a valorização da transição digital, o reforço dos mecanismos e instrumentos existentes para estudar os públicos e o impacto da atividade dos museus nas comunidades, e iniciar uma linha de estudos sobre práticas culturais da população nas várias regiões, de forma a gerar conhecimento e enquadrar os seus resultados nas políticas públicas”.

Na conferência “Museus e Responsabilidade Social – Participação, Redes e Parcerias”, iniciada na terça-feira, especialistas de vários museus europeus também sublinharam a importância crescente dos estudos de audiências de museus para “legitimar a sua vitalidade”, juntamente com outros critérios, de forma a perceber como deverão funcionar no futuro pós-pandemia.

O presidente do ICOM – Conselho Internacional de Museus, Alberto Garlandini, disse, por seu turno, que “a quebra de rendimentos tem sido dramática, com mais de 50 por cento dos museus de todo o mundo a não receber apoio financeiro direto ou indireto dos governos, apesar de serem instituições que fornecem muitos serviços à sociedade, nomeadamente na educação”.

“A pandemia aumentou as desigualdades, num mundo onde 41 por cento da população não tem acesso à Internet, portanto a pandemia limitou o acesso à cultura e ao património, um valor essencial porque proporciona bem-estar pessoal e social”, sustentou.

A diretora de estudos socioeconómicos e investigação do Departamento de Investigação e Coleções do Museu do Louvre, em Paris, Anne Krebs, também disse que as audiências dos museus estão subvalorizadas, e alertou para a sobrecarga dos trabalhadores dos museus europeus, em termos de trabalho, que têm estado a sofrer a diminuição dos recursos humanos.

Falou nos vários projetos do Louvre com entidades como hospitais, escolas e prisões, a propósito do trabalho de responsabilidade social do museu, que avalia o impacto das atividades não só nos parceiros, mas também nos funcionários.

“É muito importante dar uma lufada de ar fresco aos visitantes e públicos-alvo”, disse Anne Krebs.

A Presidente da Fundação António Cupertino de Miranda, Maria Amélia Cupertino de Miranda, deu um exemplo concreto, em Portugal, da responsabilidade social dos museus, apresentando o impacto social dos projetos de educação financeira do Museu do Papel Moeda, que já envolveu, ao longo de 11 anos, cerca de 40 mil alunos de escolas de vários municípios, com o objetivo de diminuir a iliteracia financeira nos mais jovens.

A responsável disse que a pandemia teve o lado positivo de acelerar a transição digital nas instituições museológicos e, no caso do Museu do Papel Moeda, houve um reforço da transmissão das iniciativas em ‘streaming’.

Defendeu a necessidade de medir o impacto social dos projetos dos museus para obterem maior visibilidade da sua importância, na melhoria da vida das pessoas nas comunidades onde se encontram.

“Este projeto mudou totalmente a relação do museu com as comunidades locais”, frisou.

Outros responsáveis sublinharam que os estudos do impacto das atividades dos museus na sociedade podem levar a uma valorização destas atividades, e dos seus resultados, e a uma maior participação dos públicos.

O presidente da Rede Europeia de Organizações de Museus (NEMO), David Vuillaume, defendeu a união de esforços, para “imaginar um futuro juntos, com esta diversidade e sociedade dinâmica, com museus mais criativos a apresentar ideias para o futuro”.

“Os museus têm de compreender quem são e quem servem, fazer mais compromissos e dialogar mais”, apelou, pedindo ainda a melhoria de recolha de dados nos museus de toda a Europa.

A conferência internacional, que acontece no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, com debates, entrevistas e mesas-redondas, é organizado pelo Ministério da Cultura, através da DGPC, e contou com mais de 1.500 inscritos.

Trata-se da segunda iniciativa de um ciclo de três conferências do trio de presidências do Conselho da União Europeia (Alemanha, Portugal e Eslovénia), em torno de um tema comum da relação entre museus e responsabilidade social.

A primeira conferência realizou-se a 17 e 18 de setembro de 2020, no quadro da presidência alemã, e a terceira decorrerá nos dias 23 e 24 de setembro de 2021, já no âmbito da presidência eslovena.

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