Editorial: Televida

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‘Depressa e bem tem de haver quem’. Talvez esta inversão proverbial seja uma das marcas do tempo. ‘Não é para todos’, poderá argumentar-se. Mas nunca [nada] o foi. E não convém a muitos que seja diferente, porque ‘de vencedores e vencidos’ se tem feito a história, que, pese os atropelos, não cessa de avançar e, de modo genérico, para incomparavelmente melhor. Vencem os [mais] rápidos, porque o ‘bem’ é de mensurabilidade [mais] complexa. Confundindo consensos mínimos com pensamento único, a sociedade parece avançar [ainda] pela ‘tensão de classes’ [vencedores-vencidos], transformada hoje em luta de ‘nichos’, onde, não raro, se opõem fraturas semelhantes [com disfarce de antagónicas], sem consciência integradora e sistémica.

A ‘zoomificação da realidade’ constitui um ‘postal ilustrado’ que o presente confinado desnudou. Sem resistências vazias ou crenças ingénuas, convirá, ainda assim, o questionamento iluminador que encaminhará e poderá balizar o [necessário] discernimento amadurecido.

A transformação da tecnologia em eletrodoméstico e ‘necessaire’ quotidiano permite uma [maior] gestão racionalizada do tempo, agilizando processos e progressos, dispensando etapas fastidiosas e redundantes, alcançando resultados pragmáticos mais imediatamente. ‘Depressa e bem’. A organização terá ficado mais rigorosa, documentada, focada no essencial, convocando a confiança e a responsabilidade como virtudes profissionais a treinar, pese algum ‘voyeurismo’ que chega a ser invasor da privacidade. A «presença», mesmo se diferente, ganhou realce, diversificou-se e intensificou-se, desinibiu-se e cresceu em qualidade, derrubou ‘fronteiras’ e alcançou escala. A «palavra» terá saído valorizada, para lá do ‘fait divers’ da biblioteca mais ‘in’, com texto e contexto, como clarificação e subentendido, como pergunta e ensaio de caminho.

Em síntese, gerir o tempo, dar relevância à presença, elevar a palavra, tornar rigorosa a organização, virtudes [entre outras] de mudança de época que estaremos a viver. A experiência atual, mais que «[triste] remedeio», é laboratório do novo porvir. Mais que inevitabilidade resignada, é tentativa de resposta criativa às interpelações de um tempo. Mais do que ‘fuga para a frente’, no sentido de ‘manutenção dos mínimos’, é ante estreia de inaugurações potenciais cuja atualidade é já imparável, restando apenas acontecer o ‘quando’ e o ‘exatamente como’. No melhor e no menos bom, somos protagonistas desta história, com o que isso encerra de responsabilidade ética sobre o futuro, de risco próprio de quem vive na ‘fronteira’, de rasgo criativo característico de quem se prepara para um desconhecido cujos indícios de antecipação são ainda opacos.

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Como em tudo o que é humano, a ambiguidade faz-se presente. A ‘ilusão da simultaneidade’ asfixia agendas e retira qualidade ao tempo, desequilibrando-o no que ele deve possuir de ‘ócio’, em favor da ditadura do ‘neg-ócio’. Em casa, parecemos ir a todo o lado, com o perigo de não irmos a lugar nenhum ou de estarmos ficcionadamente [apenas] em muitos espaços, que não são [ainda] lugares habitados. A ‘televida’ aparenta uma ubiquidade nem sempre saudável, preenchida ou com sentido. Num outro sentido, este ‘estado de coisas’ converte os auditórios [nós] frequentemente em destinatários, consumidores de uma produção imparável, que, impingindo a noção de interatividade, parece dispensar o nosso protagonismo. Encerrarmo-nos na lógica de um mercantilismo virtual parece algo que espreita a uma distância curta. E que talvez empobreça o ‘vendedor’ e o ‘cliente’. De modo adicional, dispensar o corpo deste novo presencialismo parece conduzir a uma ‘espiritualite’ mágica, que investe mais esforço a fazer deste tempo um hiato suspenso e menos a responder-lhe criativamente. O que tem aparecido parecem assemelhar-se a sequelas das obras principais, sucedâneos imitativos de autor, do que a propostas que tenham vindo para ficar.

Mais que respostas dogmáticas, o que flutua na espuma dos dias são interrogações.

Podemos regressar a um ‘antes’, intervalado por este tempo a que queremos resistir para o esquecer logo que ele o permita? Esta talvez seja uma das contradições lógicas que tem tirado saúde ao momento que experimentamos e nos experimenta. A resposta tem de ser não! Não existe o retorno a esse patamar suspendido algures, como absoluto de virtudes, por contraposição com os atropelos à normalidade a que o contexto atual nos sujeitou sem pedir autorização. Na razoavelmente boa gestão desta expetativa pode estar a fronteira entre a esquizofrenia e sanidade.

No campo simétrico, também não podemos prescindir desse ‘antes’, que é capital acumulado. O crescimento cultural acontece habitualmente por acrescento cumulativo de influências e inspirações mestiçadas. Mesmo quando equivale a uma rutura, afirma-se por referência a um contrário e ‘carece’ dele para afirmar a sua identidade. Assim, a memória é sempre condição de possibilidade do não acontecido.

Finalmente, podemos ensaiar a questão sobre se a virtualização replica realmente a realidade. É ‘como se’ estivéssemos lá, dizemos. Mas, de facto, não é isso que acontece. Não ‘estamos’ da mesma maneira. A conclusão terá de ser que a ‘realidade’ que a virtualização cria é outra coisa, distinta do ‘realismo’ que nos trouxe até aqui. Nesse sentido, a ‘televida’ carece de novos paradigmas, nomeadamente de diferentes perspetivas sobre a pessoa e a sua dimensão social. Reclamará a ‘morte’ de pormenores da existência pessoal e comunitária, que talvez agora se percebam como acessórios ou redundantes. O problema angustiante de todas as mortes é quando caem num nada insolúvel. Então, ergue-se o imperativo da criatividade de desenhar ‘algo’ que preencha o vazio do que já não se tem/faz, de modo saudável e resolvido, sem deixar que seja apenas a inevitabilidade histórica a terminar com o que já não faz sentido. É, portanto, um tempo de gramática nova, que só se aprenderá existencialmente. Experimentando, claro.

Luís Francisco Cordeiro Marques

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