Revolucionários Silenciosos

Sem desprimor para o espaço da pequena e grande notícia, o Penacova Actual inaugura uma lógica de chegar aos leitores como se de um ‘semanário fracionado’ se tratasse. Ao domingo, o mote temático – esta semana o teletrabalho. Em cada dia, como Páginas Soltas, uma abordagem do tema segundo a angular de diferentes protagonistas. Agora, Pedro Miguel Gonçalves, autor, professor, presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas de Penacova.

Pedro Miguel Gon vencedor do Prémio de Jornalismo Adriano Lucas – 2020 | Diário de Coimbra

Quando a pandemia COVID-19 deflagrou e, em 13 de Março de 2020, fomos todos postos em confinamento domiciliário, começou uma etapa da nossa vida em sociedade para a qual ninguém estava preparado. Poucos se deram conta que aquilo seria uma marca duradoura da futura realidade social. Muitos de nós pensámos que era mais um fait divers anedótico, como esses da corriqueira vida política, que rapidamente cairia no esquecimento. Mas, afinal, a pandemia veio para ficar. Já estamos no segundo ano. Não há garantias honestas que não se prolongue para um terceiro e um quarto. Mesmo que a doença, enquanto pandemia, fique sob controlo sanitário, as regras suplementares de higiene – máscara, gel hidro-alcoólico e distanciamento social – não vão desaparecer tão cedo.

Nenhum professor estava preparado para o que aí vinha. O teletrabalho de um professor é o ensino à distância (E@D). A adopção de medidas de ensino à distância (E@D) em 2020 foi uma emergência, foi um improviso, sem tempo para formação e preparação, de modo que cada professor fez o melhor que pôde. A maioria dos professores fez formação em E@D pela via de E@D e foram aprendendo à medida que iam trabalhado, eram professores e formandos ao mesmo tempo. Entre preparar aulas para um novo formato, dar aulas online e fazer formação chegava-se ao fim do dia sem tempo para mais nada. Alguns deles tinham, para além de tudo isto, os próprios filhos em casa a aprender a trabalhar em E@D. Por todo Portugal houve professores valentes, esforçados, a quem se deveria reconhecer o mérito de não terem abandonado os seus alunos. No Agrupamento de Escolas de Penacova sei que os alunos não foram abandonados, muitos professores foram excelentes.

Temo, no entanto, que o vasto público dos noticiários e das redes sociais não esteve atento, não se deu conta do esforço meritório feito pelos professores. Foram muito bonitas as manifestações públicas pela dedicação de médicos e enfermeiros na luta contra a pandemia, merecido reconhecimento, que ninguém negará, mas falta o reconhecimento público de outros profissionais. Entre os esquecidos encontram-se os professores. Não há neste ponto qualquer intenção corporativa de defesa dos professores, é apenas a identificação da costumeira miopia da sociedade portuguesa em relação à Educação. Faz falta o reconhecimento social do esforço dos professores.

Com o E@D as interações professor-aluno passaram a estar mediadas por um computador, por um ecrã, e o trabalho destes, tanto alunos como professores, tornou-se ainda mais sedentário. Passámos a contactar online por aula síncronas (vídeo-aulas) usando as plataformas de comunicação Zoom e Google Meet. Passámos a trabalhar em ambiente virtuais de aprendizagem, como o Moodle, o Classroom.Google ou Miicrosoft Teams, para tarefas assíncronas. Passou a fazer-se trabalho colaborativo através do Google.docs. Passámos a usar muito mais frequentemente aplicações que já eram pontualmente usadas no contexto educativo, como o Padlet, o Kahoot, o Pecha Kucha, o Canva, o Mentimeter, etc. A tecnologia já existia; só não era aplicada sistematicamente em ambientes educativos formais.

Toda esta mediação tecnológica traz vantagens e desvantagens, tanto para alunos como para professores, de difícil precisão e de difícil gestão. Nem tudo é negativo. Há, sem dúvida, uma perda na relação humana, os alunos perderam qualidade nas interações sociais, que na adolescência são fundamentais na construção psicossocial da identidade. O problema de ‘fadiga do ecrã’ atinge-nos a todos, são demasiadas horas imobilizados diante do ecrã.

Há alunos que reagem bem e outros menos bem. Os alunos para quem o contexto de sala de aula (e de escola em geral) era psicologicamente opressor, a prestação melhorou porque, estando em espaço privado, sentem-se mais livres de participar nas vídeo-aulas e revelam-se ao professor como pessoas muito diferentes. Em alunos para quem a interação de aula era tudo, a prestação piorou, pois sentem-se menos guiados e não conseguem fazer a organização de conteúdos sozinhos. A realização de provas de avaliação online está a revelar-se uma grande dor de cabeça. No entanto, fica a impressão que esta aprendizagem tem vantagens profissionais que se vão instalar no exercício docente e que as ferramentas do E@D se vão vulgarizar nos próximos anos.

Quando o ano letivo 2020/2021 começou já havia uma experiência importante para servir de guia, os planos de contingência estavam feitos. Já havia mais computadores, pontos de acesso à internet, câmaras de vídeo e tudo o mais. Mas o ambiente social na escola já não era o mesmo. Estava tudo diferente. A coisa mais grave: desapareceram os sorrisos. A máscara tapa-os. Uma parte fundamental da comunicação desapareceu.

Em 22 de Janeiro voltou o confinamento domiciliário e voltou a prática do ensino à distância (E@D). Os professores já estavam preparados, agora já não havia surpresas e a resposta foi calma, tranquila, efetiva, eficaz, agindo de acordo com os planos. Agora, trabalhar em E@D já não é tão dramático. Penso que muitos professores em Portugal, como os meus colegas do Agrupamento de Escolas de Penacova, estão a ser revolucionários silenciosos, que, sem o saberem já, estão a contribuir para a mudança na profissão. Qualquer dia, ser professor já não é o que era.

Pedro Miguel Gonçalves

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