Saúde: Sabe avaliar corretamente a sua tensão arterial?

De uma forma simples, a tensão ou pressão arterial consiste na força com que o sangue circula pelo interior das nossas artérias. A hipertensão arterial surge quando esta pressão se encontra persistentemente elevada. A tensão arterial tem duas medidas: a tenção arterial sistólica ou “máxima” e a tensão arterial diastólica ou “mínima”. A primeira corresponde ao momento em que o coração contrai, enviando o sangue para todo o corpo e a segunda ocorre quando o coração relaxa para se voltar a encher de sangue.

A hipertensão arterial, apesar de na maior parte das vezes não dar sintomas, é o principal fator de risco para as doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, nomeadamente, o enfarte agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e insuficiência renal, tão importantes causas de morbilidade e mortalidade em todo o mundo. Estima-se que 30 a 45% da população europeia terá hipertensão arterial, e Portugal não é exceção a estes números. Sabemos que cerca de 42,2% da população portuguesa terá hipertensão arterial (44,4% dos homens e 40,2% das mulheres). Sabemos também que só pouco mais de metade dos doentes com hipertensão arterial medicados têm a doença controlada, valor que nos preocupa muito! Normalmente, a hipertensão arterial está associada a outros fatores de risco como a obesidade, o sedentarismo e a dislipidémia (alteração dos valores de colesterol), pelo que o seu controlo dependerá e beneficiará com o controlo dos restantes.

Dizemos que alguém é hipertenso quando, na consulta, os valores são 140/90mmHg ou mais. Então, porquê que é tão frequente pedirmos para fazer medições em casa? Porque não raramente os valores na consulta estão elevados por ser uma situação de stress, num ambiente diferente ou porque simplesmente queremos perceber como são os valores de tensão arterial na maior parte do tempo, o que nos vai permitir decidir se será necessário iniciar ou ajustar a medicação. Sabemos também que quem mede regularmente a tensão arterial em casa terá maior adesão à terapêutica e, portanto, melhor controlo do seu risco cardiovascular. No caso das medições feitas em casa, queremos que sejam inferiores a 135/85mmHg. O compromisso de levar os registos de tensão arterial para a consulta seguinte faz deste um trabalho de equipa, que terá consequentemente maior sucesso a longo prazo.

Durante a pandemia de Covid-19, foram muitas as consultas adiadas e as que deixaram de ser presenciais, em que fomos obrigados a fazer a vigilância dos nossos utentes à distância. Nesta fase, tornou-se ainda mais importante a existência de um controlo dos fatores de risco pelos próprios utentes, e a tensão arterial é dos mais importantes.

A medição da tensão arterial, apesar de parecer um procedimento simples, é muitas vezes feito de forma errada e leva, portanto, a valores também eles errados. De seguida deixo algumas regras de ouro a ter em conta nas suas medições da tensão arterial em casa:

  • Deve escolher um aparelho automático, de medição no braço (com a ressalva de que em pessoas com arritmia poderá não ser possível a medicação com aparelhos automáticos!)
  • Nos 30 minutos prévios à medição, não deve fazer exercício físico, fumar ou beber café
  • Antes da medição, deve estar confortavelmente sentado, num ambiente tranquilo, durante pelo menos 5 minutos
  • Deve ter os dois pés pousados no chão, as costas direitas e apoiadas no encosto da cadeira
  • Os braços devem ficar esticados, apoiados numa mesa, mais ou menos à mesma altura do coração
  • É importante que o tamanho da braçadeira que utiliza seja adequado ao tamanho do braço (pequena, standard ou larga). Braços cuja circunferência acima do cotovelo for maior do que 32cm, exigem uma braçadeira grande. Se a braçadeira for demasiado pequena para si, os valores das medições serão falsamente elevados. A braçadeira deve estar colocada ao nível do coração
  • É importante que não fale durante as medições
  • Devemos fazer sempre 2 medições, com um intervalo de pelo menos 2 minutos. Se os valores foram muito díspares, devemos medir uma terceira vez e nesse caso ignorar os valores da primeira medição. O nosso valor final será a média entre as 2 últimas medições
  • A avaliação da tensão arterial deve ser feita pelo menos durante 3-4 dias, preferencialmente durante 7 dias seguidos, em 2 períodos diferentes do dia: de manhã e à tarde, por exemplo
  • É mesmo importante que registe as medições efetuadas, bem como o dia e a hora, e que se faça acompanhar destes registos na sua próxima consulta médica

Hoje em dia, muitos aparelhos digitais são feitos para medir a tensão arterial no punho. A medição no punho não é tão fiável quanto a do braço, pois a posição do mesmo durante a aferição é capaz de alterar os resultados. Para que a medição seja correta, o punho deve estar apoiado numa mesa, à mesma altura do coração. Se o braço estiver para cima ou para baixo, os resultados não serão válidos. É cada vez mais frequente existirem utentes com dispositivos como smartwatches (relógios inteligentes) que também permitem uma medição da tensão arterial, para os quais a informação anterior é igualmente válida. Apesar de poderem representar valores menos fidedignos, podem ser um auxiliar importante no controlo da tensão arterial. Uma dica: na próxima vez que fizer uma medição da tensão arterial, seja na consulta ou na farmácia, leve o seu dispositivo e faça uma medição com o seu aparelho logo a seguir, para perceber se há disparidade entre os resultados. No caso de coincidirem, sabe que pode continuar a fazer a vigilância da sua tensão arterial com confiança.

Joana Fernandes Duarte 

Médica Interna de Medicina Geral e Familiar na USF Buarcos | Figueira da Foz

 

 

 

 

 

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