Penacova, onde o edificado se funde com a paisagem

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No passado dia 28 de março comemorou-se o dia nacional dos centros históricos. Tratando-se de uma dimensão nuclear dos territórios em geral, e também do nosso, o Penacova Actual decidiu desafiar o arquiteto Fábio Nogueira para uma conversa sobre o nosso espaço e a maneira como o habitamos.

Principiemos a conversa por uma breve biografia sua.

O meu nome é Fábio Fonseca Nogueira, tenho 41 anos e sou natural da Rebordosa. Sou licenciado em Arquitetura, tenho duas pós graduações, uma em acústica das edificações e outra em energia para a sustentabilidade, sendo também Perito Qualificado em Térmica.

De 2003 a 2017 trabalhei no ‘Gabinete Reis de Figueiredo – Arquitetos da Beira’, na Figueira da Foz, sendo que nos últimos sete anos em que lá trabalhei tive a função de Arquiteto coordenador.

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Em 2017 voltei às origens e fundei em Penacova o ‘Gabinete Meridiano – Atelier de Arquitetura’, onde atualmente desenvolvo a minha atividade de Arquiteto.

Tive uma incursão como docente no ensino superior na EUAC, onde lecionei as cadeiras de Arquitetura e Sustentabilidade e de Construções.

Em 2019 iniciei um novo projeto, em parceria com o Victor Seco, ligada ao turismo náutico no Rio Mondego, as Serrana do Mondego.

Estive sempre ligado ao associativismo e atualmente desempenho a função de Mordomo-Mor da Confraria da Lampreia e a função de Secretário da Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão.

O contexto do nosso diálogo prende-se com a evocação do Dia Nacional dos Centros Históricos, celebrado no passado dia 28 de março. Na sua visão de arquiteto, qual é a ‘fotografia panorâmica’ do nosso Concelho, nomeadamente no que se refere às três vilas, Penacova, Lorvão e S. Pedro de Alva?

Os centros históricos das três vilas são muito diferentes e, forçosamente, têm de ser avaliados de forma autónoma. No entanto, os três têm uma coisa em comum: em 2016, o Município de Penacova delimitou uma Área de Reabilitação Urbana (ARU), que é um instrumento urbanístico que permite delimitar uma zona, que contempla espaço público e espaço edificado, e que, em virtude da qualidade ou do eventual estado de degradação, justifica uma intervenção integrada.

Esse instrumento é muito vantajoso para os proprietários que ai queiram intervir, uma vez que o IVA das obras a realizar é apenas de 6%, há redução das taxas urbanísticas em 60%, isenção de IMI durante um período de tempo constante da intervenção e, ainda, redução de IMT em 80%.

Felizmente, na minha atividade profissional tenho a sorte de ter realizado projetos para estes três centros Históricos, e com abordagens muito distintas.

Em São Pedro de Alva, realizei o projeto do ‘Mini Mercado Casa Videira’, que irá abrir em breve. Dado o contexto de uma Vila mais recente, aqui optamos por demolir o edifício existente e, no seu lugar, construir um novo, que se adaptasse ao edificado circundante, sem descaracterizar a Praça Mário da Cunha Brito.

Em Penacova, onde o edificado é de grande valor patrimonial, elaborei o projeto de recuperação da Casa Azul, um projeto desafiante, uma vez que se trata de uma das casas mais importantes do edificado da Vila, quer pela escala, quer pela cor que a demarca das restantes. Aqui o acompanhamento da obra foi diário e tentámos ao máximo preservar e replicar os pormenores existente.

Por sua vez, a Vila de Lorvão nasceu e cresceu em torno do Mosteiro, que, a cada olhar, está presente na paisagem. Aqui realizei dois projetos, o da regeneração Urbana do Centro Histórico e tive a sorte de poder realizar o projeto que engloba a promoção da acessibilidade ao Mosteiro [desenho da exposição Centro Interpretativo do Mosteiro de Lorvão e a respetiva loja], obra essa que está para breve, segundo o que sei.

Para qualquer arquiteto poder intervir num edifício como o Mosteiro de Lorvão, com tantos anos de história, é um desafio e um motivo de orgulho.

A conhecida expressão reabilitação urbana significa concretamente o quê? Trata-se de uma operação cosmética e estrutural aos edifícios? Compreende o exercício de lhes oferecer vida? É um esforço de os reinventar na sua funcionalidade? Tudo isto ou nada disto? Quais são as reais possibilidades passíveis de operacionalização, neste particular, de um Concelho como o nosso?

A Reabilitação Urbana, acima de tudo, é um processo que tem o objetivo de povoar os centros Históricos e, para lograr tal, assente na recuperação do edificado existente, muitas vezes devoluto, dotando-o de características habitacionais contemporâneas e atrativas para a fixação de novos habitantes. Muitas vezes não é a solução mais barata, mas é a opção mais sustentável.

A intervenção nos centros históricos pode ter as duas vertentes, a cosmética e a estrutural, no entanto só acredito na segunda. Os centros históricos geralmente são compostos por edifícios com paredes de pedra, lajes e cobertura com estrutura de madeira. A madeira, como sabemos, é propensa a ter várias patologias, logo toda a estabilidade do edifício deve ser sempre revista quando se pretende intervir nestes edifícios.

Sou apologista que se deve manter ao máximo as características exteriores do edifício e, no interior, repensar os espaços por completo, uma vez que os edifícios foram construídos numa época em que as questões de salubridade e saúde eram desvalorizadas.

A funcionalidade, forçosamente, tem de ser equacionada, temos de desenhar uma casa contemporânea no interior de um edifício antigo, temos de ter as áreas que o REGEU obriga, tal qual se tratasse de um edifício novo.

Um dos problemas maiores da reabilitação urbana é a dificuldade em assegurar o estacionamento privado, uma vez que, nestes casos, é complicado a realização de garagens, o que faz com que muitas pessoas descartem automaticamente a possibilidade de viverem em centros históricos.

Falando nos casos particulares do nosso Concelho, as abordagens têm de ser muito diferentes.

Lorvão tem um centro histórico muito antigo, com uma planta de origem medieval, o que faz com que as ruas tenham um perfil muito diminuto. No caso particular da encosta do Monte, a nenhuma das ruas chega um automóvel, o que dificulta quer a recuperação do edificado, quer a fixação de novos habitantes. Tal como referi, se o carro não dá para estacionar à porta… raramente esse espaço é atrativo a novos públicos.

Por sua vez Penacova tem uma planta também antiga, mas o perfil de rua aqui é mais largo, o que permite um melhor acesso ao centro histórico. Nos últimos anos temos assistido a várias obras de recuperação do edificado, algumas de raiz e outras meramente estéticas.

Finalmente, São Pedro de Alva, em virtude de ser a mais jovem das três Vilas, é a que está em melhor posição para ser atrativa a novos públicos e, felizmente, desde o lançamento da ARU, na Praça Mario da Cunha Brito e nas imediações da Igreja assistimos a várias recuperações de raiz, o que é muito interessante de ver.

Nas grandes cidades é comum o ‘slogan’ de devolver pessoas aos centros históricos. Também nos centros históricos das nossas três vilas minguam as pessoas. Não temos ‘Airbnb’s’ em grande escala, nem o nosso turismo pernoita muitos dias. Que ensaios reais poderão, na sua perspetiva, ser tentados para atingir este ensejo de ‘repovoamento’?

 A vontade de devolver as pessoas aos centros históricos é real, quer em grandes cidades, quer em pequenas vilas, como é o caso das do nosso Concelho.

O crescimento dos centros históricos acompanhou as mudanças sociais e psicológicas das sociedades, bem como as necessidades de cada época. Os centros históricos têm de se adaptar aos novos tempos, as habitações têm de ter todas as comodidades atuais. Por exemplo, é impensável um prédio de 5 andares não ter elevador.

Também a falta de aparcamentos e estacionamento afasta as novas gerações dos centros históricos.

Para conseguirmos dinamizar e promover o turismo nos centros históricos, em primeiro lugar temos de os tornar atrativos, não chega intervenções pontuais, estas devem ser concertadas e articuladas entre os investimentos públicos e os privados.

Veja-se o caso de Penacova, em que foi feita uma requalificação do espaço público, foi criado um parque de estacionamento [apesar do acesso ao mesmo não ser o melhor é algo que facilmente pode ser melhorado],  assistimos à requalificação do ‘Ténis’ e ao inicio dos trabalhos no antigo Tribunal.

Por sua vez, em Lorvão e São Pedro de Alva temos um espaço público degradado, no entanto, ambas as vilas têm um projeto de requalificação aprovado e a intenção de o concretizar.

Penso que, com este esforço, estamos no bom caminho para nos tornarmos cada vez mais atrativos para os turistas.

E com a concessão do Mosteiro de Lorvão, através do programa REVIVE, a um particular, para aí instalar uma unidade hoteleira de 5 estrelas, a nossa oferta turística irá ser atrativa para um novo tipo de público.

Nos últimos anos, temos vindo a assistir a um crescente aparecimento de alojamentos locais no nosso Concelho, na maioria fora das vilas.

No ano passado, tive uma aproximação maior à realidade, uma vez que, durante os fins de semana, estive no Reconquinho a vender a bilheteira das Serranas do Mondego e verifiquei que havia muitos turistas que pernoitavam em Penacova em regime de  AL.

Falta-nos ainda criar um polo agregado, em que todos os intervenientes possam trabalhar em conjunto, para que possamos ser ainda mas atrativos para os turistas. Essa articulação deve ser feita por todos os intervenientes: município, Alojamentos, restaurantes, operadores turísticos, museus, igrejas, etc.

Certamente que existem critérios técnicos, além de estéticos, a presidir à relação entre paisagem natural e paisagem humanizada. Como lê este (des)equilíbrio no nosso território concelhio?

A estética é uma parte importante de todo o processo, no entanto nunca pode ser dissociada dos critérios técnicos e do local onde estamos a edificar.

Através da necessidade, o homem moldou a paisagem e, por sua vez, os atributos geográficos e naturais moldaram o crescimento dos nossos povoados.

Vejamos o caso particular do Mosteiro de Lorvão, que foi o principal polo dinamizador e é, simultaneamente, o elemento que mais se impõem na paisagem, condicionando, inclusivamente, a forma que a povoação adquiriu ao longo dos tempos. Apesar do Centro Histórico estar degradado, é uma lição de arquitetura a adaptação que foi feita do local, de forma a tirar partido de um declive muito acentuado, da falta de uma exposição solar. É uma pena que as novas gerações voltem as costas a estes espaços, preferindo construir na periferia.

Falando de Penacova, é inegável o valor patrimonial, estético e paisagístico que a vila tem, daí que, nos tempos idos dos aristas, fosse considerada a Sintra da zona centro. A adaptação paisagística da vila é magnífica, tirando partido da topografia acidentada e que, pontualmente, cria bolsas/miradouros que se abrem com vistas panorâmicas para o Rio Mondego.

São Pedro de Alva, acaba por ser destas três vilas a que tem a topografia mais fácil, praticamente toda ela é plana, acabando por se adaptar muito facilmente á morfologia do terreno e tirando partido de uma dicotomia muito interessante de cheios e vazios.

Em jeito de conclusão, as três Vilas acabam por se fundir e nunca se imporem à paisagem circundante, e isso é um exercício muito complicado de fazer, e que só é conseguido quando já passaram e habitaram várias gerações nesses espaços.

 

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