Entrevista: Ricardo Oliveira, professor da EBA, a propósito do Dia Mundial da Atividade Física

PA: Como se costuma apresentar o Ricardo profissionalmente e aos seus amigos? Partilhe connosco a amplitude dos projetos em que está envolvido.

Ricardo Oliveira: “Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”, proferiu Confúcio, e não poderia estar mais certo! Desde a minha fase de adolescência que não me imaginei associado a outra profissão que não fosse ligada à Atividade Física e Desportiva, e sempre trilhei o meu caminho nesse sentido. O facto de ser uma pessoa bastante sociável e interativa ajudou-me a perceber que o meu futuro só poderia estar relacionado com o trabalho direto com as pessoas, e como “o caminho faz-se caminhando” cheguei até aos dias de hoje como Professor de Educação Física, Personal Trainer, e Instrutor de Fitness.

Atualmente, nas várias vertentes em que estou envolvido, procuro sempre três coisas: ser comunicativo, amigável e dedicado. E, social e profissionalmente, levo estas três premissas à letra e procuro que façam parte de mim e procuro igualmente que as pessoas fiquem com uma boa ideia da comunicação conseguida. É isso que nós queremos quando promovemos a interação, não é verdade?

No dia a dia, com quem trabalho, procuro influenciar positivamente cada aluno ou cliente, e criar o estímulo mais positivo possível para a hora em que estamos juntos, para que saiam da sessão de aula com um sorriso no rosto e a vontade de voltar brevemente. Não há nada mais gratificante do que sentir que realmente o nosso trabalho, e a nossa postura, são apreciados por quem nos rodeia, seja com amigos ou no contexto profissional.

PA: Entre outros aspetos, questões como obesidade infantil e problemas ligados à instabilidade psicológica são comuns entre os jovens. Qual a importância da educação física na formação integral das crianças e jovens?

R: Refiro muitas vezes que uma pessoa ativa é uma pessoa mais feliz, e a Educação Física é um dos pilares neste processo na vida das crianças e jovens. Primeiramente, é uma disciplina de caráter maioritariamente prático, ao contrário das outras disciplinas, e permite, para além do desenvolvimento motor, trabalhar aspetos fundamentais que nem sempre são conseguidos em sala de aula. Os alunos aprendem a conviver em grupo e a fomentar a socialização e o trabalho de equipa; a cumprir e a respeitar regras diferentes das que têm em sala de aula; a terem responsabilidade; a serem solidários; para além de estimular a criação de hábitos desportivos e a desenvolver valores como a autoconfiança, o respeito pelo outro, a disciplina, a motivar-se e a motivar os outros e, muito importante também, a saber lidar com a vitória e com a derrota, porque na vida vamos ter muitos momentos destes – em que ganhamos e em que perdemos – e é importante que o professor/formador ajude cada aluno a conviver com ambas as situações.

Para além disto, não existem quaisquer dúvidas que a Educação Física tem forte influência na prevenção de certas doenças, como o Luís referiu e bem. No caso específico da obesidade, que infelizmente continua a não ser encarada como uma doença pela sociedade, num estudo recente verificou-se que mais de metade da população portuguesa tem excesso de peso ou é obesa, sendo esta doença das que mais contribue para a mortalidade em todo o planeta e continua a ser um fator de risco para o desenvolvimento de outras doenças, e por isso torna-se tão importante que esta doença se previna desde a infância para que cada pessoa possa ter a projeção de uma vida mais saudável e ativa. Também é indubitável que o Exercício Físico controla a depressão e reduz os níveis de ansiedade, assim como aumenta o entusiasmo e a felicidade, pelo que se podem verificar bastantes benefícios não só físicos mas também para a saúde mental.

Por último, mas não menos importante, verificamos que as novas tecnologias trouxeram muitos benefícios à atualidade mas também muita dependência. Verifica-se, cada vez mais, que os jovens utilizam de forma desequilibrada as tecnologias de informação e, consequentemente, não desenvolvem outros tipos de interesse, onde se pode englobar a Atividade Física. Portanto, a disciplina de Educação Física torna-se crucial para que estes mesmos jovens consigam abrir horizontes e olhar para o Desporto como parte fundamental e estruturante da sua formação, mas também da promoção da sua saúde e bem estar.

PA: A pandemia, a par de muitos outros elementos, retirou o corpo das relações sociais. Significa isto que a pessoa, que é uma unidade, perdeu harmonia e equilíbrio. Para lá dos ‘quilos a mais’, nota este ‘dano emocional’ nos alunos? Como se recupera? 

R:  Sem dúvida que teve influência, e o papel do professor é fundamental para contrariar toda a desmotivação. O professor/formador deverá manter uma postura amigável e compreensiva em todo este processo, e procurar encontrar novas estratégias estimulantes que façam com que os alunos esqueçam, naquela sessão de aula, que está numa aula lecionada à distância e que esta mesma pode ser tão ou mais produtiva comparativamente com uma aula presencial. No meu caso específico, procurei criar aulas diversificadas todas as semanas, utilizando material que eles tinham em casa para realizar a vertente prática, fornecendo feedback’s e reforços positivos em toda a sessão de aula de modo a que cada de um deles se sentisse estimulado e motivado, e verifiquei uma adesão muito significativa de semana para semana. Procurei, igualmente, ter sempre uma postura com boa disposição e alegria junto deles, principalmente com as turmas que tinham aulas na primeira hora da manhã, pois não era fácil convencer alunos a sair da cama àquela hora para realizar uma aula prática (risos). Foram estratégias que foram dando resultado e procurei, de semana para semana, perceber o que correu bem mas, acima de tudo, o que poderia melhorar e fui ao encontro desse objetivo.

PA: Para lá da Escola, as pessoas com quem trabalha procuram-no com que motivações? Saúde? Estética? Saúde psicológica? 

R: As pessoas procuram-me essencialmente por dois motivos – bem estar físico e psicológico. Tenho Grupos de Fitness, alguns deles no Concelho de Penacova, que treino há 8 anos, e existem clientes que estão na génese desses grupos e mantêm-se até à data de hoje, sendo que o objetivo maioritário dessas pessoas é a socialização, é a alteração de rotinas, é o estilo de vida ativo, e a preocupação que têm relativamente ao seu corpo é meramente associada à saúde e não à questão estética. Por outro lado, tenho também clientes que me procuram porque não conseguem treinar sozinhos, ou porque têm dificuldade em manter a motivação para treinar de uma forma contínua, ou simplesmente porque querem aumentar ou diminuir certas regiões do corpo. Independentemente do objetivo de cada cliente, cabe-me trabalhar sempre da melhor forma possível para que os objetivos sejam concretizados e a pessoa se sinta motivada a manter a rotina desportiva. A felicidade dos meus clientes é a minha felicidade e a real concretização do meu trabalho.

PA: O que seria um programa possível e exequível, para um ‘leigo na matéria’, a zero na atividade física, que queira começar depois de o ler, motivado pelas suas palavras?  

R: Primeiramente, iniciar alguns “baby steps”. Estabelecer metas e pequenas mudanças na rotina habitual que façam com que a pessoa se sinta melhor e mais predisposta, mas que não a faça desmotivar um futuro breve. Muitas vezes verifico que algumas pessoas que viveram toda a vida com hábitos sedentários se motivam e tentam, de forma repentina e desmedida, alterar todos os maus hábitos que tinham, incluindo os alimentares. Ora, se a pessoa viveu anos e anos seguidos com péssimas rotinas, espera alterar as mesmas de um momento para o outro? Dificilmente acontecerá! Torna-se, assim, importante haver um equilíbrio e ir tornando a sua vida melhor passo a passo, respeitando a progressão do caminho a percorrer.

Assim, qualquer pessoa que pretenda alterar certos hábitos na sua rotina diária deverá, primeiramente, consultar um médico para perceber se existe alguma restrição a nível patológico que impeça alguma modalidade ou atividade, e um nutricionista para aprender a alimentar-se de forma regrada e saudável. Depois, deverá começar a melhorar a sua Condição Física, começando a realizar algumas caminhadas, ou até mesmo andar de bicicleta, preferencialmente num local que a motive e alterar certos hábitos – trocar o elevador pelas escadas; utilizar transportes públicos ou deixar o carro mais longe para ir para o trabalho; procurar estar mais ativo em casa; entre outros. Depois, por último mas não menos importante, procurar um Profissional do Desporto que possa acompanhar todo o caminho a desenvolver, e escolher uma atividade com que se identifique e iniciar de forma progressiva.

Importante reter que independentemente de serem 10 minutos de caminhada lenta, ou 1 hora de Corrida, o importante é mesmo começar, respeitar a evolução do corpo, e confiar no processo.

 

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