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As palavras que descem da Serra: A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante

Hoje da Serra saem palavras de uma escritora misteriosa. Escolhi Elena Ferrante. Esta pessoa é desconhecida do público, não dá entrevistas que não sejam escritas e por intermédio da sua editora; terá nascido em 1943. Especula-se muito sobre quem seja, mas confesso que nada me interessa e não vou gastar os vossos olhos com resultados de pesquisas googlescas.

A primeira vez que ouvi falar de Elena Ferrante foi, como provavelmente muitos outros leitores, pelo A Amiga Genial. Este livro iniciou um período de leituras sôfregas, envolvendo os quatro livros dessa saga. São tomos independentes que se podem ler como únicos, contudo saber que “ainda há mais” impele-nos a ler, a querer mais. Falo de uma escritora com qualidades estrondosas na construção da narrativa, que, voando ou mergulhando ou apenas caminhando sobre a sua cidade de Nápoles, nos oferece paisagens de uma beleza sublime ou de uma fealdade atrofiadora. As suas viagens pela geografia humana são igualmente ricas, mostra-nos o pior e o melhor que coexistem dentro de cada ser, construindo personagens limítrofes, tanto pela positiva como pela negativa. Recentemente, a minorca incluiu um dos seus últimos títulos no meu saco, A Vida Mentirosa dos Adultos. Uma vez mais senti a sofreguidão a apossar-se e, mesmo com algumas limitações de tempo devorei. A leitura desta autora deixou-me sempre um sentimento estranho, algo que até agora não tinha conseguido definir. Sempre soube que era um sentimento inquietante, motivo pelo qual a tetralogia inicial ainda baila na minha cabeça, anos depois de a ler. No final deste que hoje vos deixo consegui identificar o sentimento e não gostei. O que me resta depois de ler é uma sensação de sórdido, algo pior do que sujo. Senti outra coisa inquietante e que tem a ver comigo enquanto leitora. Quando leio sinto necessidade de me enquadrar no tempo e no espaço, mesmo quando são tempos e espaços irreais. A realidade crua de Ferrante precisa, na minha perspectiva, de um enquadramento temporal que não consigo sentir, embora até seja fácil de fazer pelas pistas paisagísticas, pelos costumes das gentes, pelas descrições cognitivas e emocionais das personagens. Acredito que a falha seja minha, porque a escrita é excelente. Dito isto deixo, para hoje, a sugestão de leitura A Vida Mentirosa dos Adultos de Elena Ferrante.

“Dois anos antes de sair de casa, o meu disse à minha mãe que eu era muito feia. “

“Sentia a leviandade fátua com que liquidara questões complicadas, e crescia-me no peito uma sensação de mal estar muito semelhante à que sentia em criança, quando fazia por impulso qualquer coisa que de certeza desagradaria aos meus pais. Nessas alturas duvidava de ter suscitado simpatia. O seu tom irónico, na memoria, transbordava e transformava-se explicitamente em escárnio. Recordava-me de um tom desprezível que eu tomara, de certos segmentos da conversa com os quais pretendera causar sensação, e tinha uma impressão de frio e náusea, queria correr comigo de mim como se estivesse prestes a vomitar.”

Sinopse

Giovana, a narradora, é uma adolescente que descobre que os adultos, por vezes, são muito pouco coerentes. Descobre que o seu pai, que ela adorava, por ser lindo, inteligente, atencioso e muito carinhoso, afinal a acha feia. Esta descoberta vai marcar o seu percurso de vida. Na realidade o pai apenas a comparou com a sua tia Vittória. Para o pai e para a mãe, Vittória é um ser horrível, capaz dos actos mais vis, e a sua fealdade interna estende-se ao exterior marcando a sua fisionomia.

Depois desta descoberta Giovana quer conhecer a tia e vai mergulhar no mundo sórdido de uma Nápoles feia e suja de onde o seu pai conseguiu escapar graças a uma tenacidade férrea, uma capacidade de trabalho enorme associada a uma inteligência prodigiosa. Descobre ainda que a sua mãe, linda, cheirosa, bem nascida e bem posicionada socialmente é fraca, incapaz de resistir a um marido traidor e oportunista. Constanza e Mariano são o outro casal perfeito mas muito mentirosos. Ela tem um caso com o marido da melhor amiga, ele com todas as saias que se mostrem disponíveis.

As filhas de Constanza e Mariano são as melhores amigas de Giovana e pela mão desta vamos assistir ao evoluir das suas vidas.

A vida destas adolescentes vai ser condicionada pelas vivências dos adultos que as rodeiam, de um lado a Nápoles bem, linda, limpa, culta, educada, rica, estável; do outro a Nápoles degradada, suja, feia, pobre, inculta, deseducada. Giovana vai mergulhar num mundo desordenado e sujo apenas por achar que o seu pai a considera feia. Vai procurar sujar-se o mais possível. Avilta-se de formas impensáveis para poder comparar dois mundos e entrar no mundo  de Roberto, um jovem académico de origem medíocre mas talento imenso.  O enredo envolve uma pulseira que passa de mão em mão, como artefacto de má sorte, pois abre um caminho de desordem e destruição.

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

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