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Ai Justiça! (poesia)

O dia de hoje
Vai ficar na história
Como um dia de má memória
A Justiça saiu à rua, empertigada, com a beca a transpirar
!… e a balança a soluçar …!
Esgrimiu as suas inconsistências em directo nas televisões
Utilizou uma sala de audiências como ringue das desilusões
E fez cair a máscara daquele universo
Dos que driblam a Lei, pelos vistos com sucesso
Ao Povo não foi servida isenção
Nem crença
Nem modo de tolerar, com indiferença
A queda deste Edifício que se está a desmoronar
… com todos os poderes ocultos, em fila pra aproveitar!

Luís Pais Amante
Telheiras Residence
9Abr21, 20h00
Ainda a digerir o colapso que se apoderou de um pilar básico da nossa Democracia!

2 COMENTÁRIOS

  1. “Ai Justiça!”, assim o Luis Amante comenta poeticamente o estado a que chegou a Justiça portuguesa.

    “Ai becas!”, Ai togas!”, permito-me eu também lamentar todos os que as envergam e que, a pouco e pouco, de boa-fé ou não, uns mais distraídamente do que outros, , se deixaram envolver nas complexas e opacas teias em que se transformou a actividade judiciária portuguesa.

    Infelizmente, o que aconteceu no passado dia 9, era mais do que previsível para quem viesse a acompanhar tudo isto com bom senso e o devido distanciamento.

    Não morro de amores pelos arguidos – sobretudo pelo principal deles – agora provisoriamente ilibados pelo juiz de instrução, mas a verdade é que por muito que custe aos exaltados críticos deste magistrado, supostamente muito justiceiras, uma pessoa não pode ser condenada só porque alguém acha que sim. Estas coisas têm regras para o efeito, que devem de ser cumpridas e respeitadas.

    E quem acusa, sobretudo quando quem o faz é alguém em representação do próprio Estado que criou essas mesmas regras, tem a obrigação de as cumprir e apresentar algo mais consistente do que provas meramente indiciárias.

    E tem também obrigação de respeitar os prazos e utilizar eficazmente, em tempo útil, tudo aquilo que de concreto e positivo tenha disponível contra o(s) suspeito(s) sem andar entretido em jogos de estratégia para montar uma monstruosidade processual, que muito lhes deveria consolar o ego e a presunção.

    A não ser que se tenham apressado a prender o homem, com grande aparato mediático, logo em Novembro de 2014, sem terem nada de concreto e consistente contra ele…

    Claro que, como em Outubro de 2015 iam haver eleições legislativas, e este “escândalo”, a envolver alguém do PS – ou, até, o próprio partido – com uma acusação formal a poder surgir durante o Verão de 2015, antes dessas eleições, daria muito jeito ás hostes do PPD/PSD e do CDS. Mas, dessa perspectiva, as coisas não terão corrido lá muito bem…

    Claro que existe uma terrível sensação de frustração e de incompreensão na opinião pública que, ardilosamente, ao longo dos anos foi sendo intoxicada por regulares fugas de informação, vindas do lado da investigação, e que foram publicadas e amplificadas, até á náusea, sobretudo em determinado órgão de comunicação social escrita e televisiva.

    Tudo para se conseguir uma prévia condenação pública dos arguidos já que, pelos vistos, a investigação estagnava sem nada de concreto e a técnica da “pesca de arrasto” apenas fornecia discutíveis provas indiciárias e pressentia-se o falhanço da tão incensada equipa de investigação.

    Portanto, por muito que custe aos indignados populistas de serviço, não é só o Juiz de Instrução que merece ser o alvo de tanta fúria, buzinões e petições. Ele, pelo menos, teve o mérito de ser discreto, não ter permitido as costumeiras fugas de informação, ter analisado e dissecado exaustivamente a acusação pública e ter decidido sem concessões ou cedências.

    Na sua decisão esse magistrado alegadamente cometeu erros técnicos? Porventura cometeu, mas não tantos como os que as tribos justicialistas lhe imputam. Além de que esses erros poderão, ou não, vir a ser corrigidos por força do recurso que vai ser interposto para o Tribunal da Relação de Lisboa.

    No entanto, apesar de tudo, o Juíz de Instrução conseguiu infligir ao arguido José Sócrates a humilhação de, em público e em directo para milhões de telespectadores, cara a cara e de viva voz, lhe dizer que até existiam no processo indícios de factualidade susceptível de caracterizar o crime de corrupção e que só não seria julgado por isso porque, no seu entender, tal factualidade já estaria prescrita.

    A influência negativa da cultura do tele-comentário futebolístico, imediatista e emocional, desde logo se mostrou em todo o seu esplendor e distorce o debate que, necessariamente, tem que ser feito.

    Mas, convenhamos, não estaremos a discutir o penalti, o canto ou o fora de jogo dum qualquer desafio de futebol. Estamos a discutir algo de muito importante, porque a Justiça é um dos pilares do sistema democrático.

    Precisa-se de bom senso, de calma e de firmeza sem esquecer qua a Justiça tem o seu tempo, a sua razão e o seu tecnicismo, que nem sempre são fáceis de explicar.

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