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As palavras que descem da Serra: O Regresso, de Victoria Hislop

Hoje da Serra as primeiras palavras a sair são um pedido de desculpas. Tenho de pedir desculpa a si que me vai ler por não conseguir manter esta rubrica num tom mais impessoal. A leitura de um texto é impossível de ser feita sem os sentimentos individuais do leitor, serão sempre os seus valores que vão orientar a gama de sentires que o texto pode despoletar. Sou uma leitora vulgar que sempre traveste as palavras que os autores oferecem com as suas vivências pessoais.

Hoje assinalamos um dia que nunca poderemos deixar cair no esquecimento. É o dia da Liberdade e também da Responsabilidade. Há 47 anos os militares portugueses libertaram o povo de um jugo terrível. A ditadura obscurantista foi eliminada e um tempo de luz surge para os portugueses. É nossa responsabilidade manter essa luz acesa. Poderia, e se calhar deveria, deixar uma sugestão de Manuel Tiago, contudo não vou por aí. A tirania em Portugal não era/é única no mundo e é por aí que vou, pelo mundo.

Em junho de 2016 o meu marido levou-me a viajar pelo seu passado. Foi uma viagem dura mas belíssima, pelo Alentejo “profundo”, que, nos últimos anos da década de 70, seria ainda mais “profundo”. Levou-me à Amareleja e à Granja, descreveu-me os sons e alguns sabores (mesmo que buscados em Espanha como por exemplo as coxinhas de rã!!!) do passado. Senti-me transportada para outros tempos e outras realidades a anos luz de tudo o que eu vivi, mas sobretudo senti o sabor da solidão e da introspeção que haveriam de o caracterizar para todo o sempre. Nas vivências do meu marido Alentejo e Espanha estavam ligados. As proximidades geográfica e cultural a isso impeliam e dar um passeio ao outro lado com o pai era tão normal como ir à escola. Por isso, e por saber as minhas raízes tão de esquerda demos um saltinho a ver a campa rasa onde O General Sem Medo foi enterrado depois de assassinado por encomenda do regime a que fez oposição franca e clara. Ficamos os dois estarrecidos pelo sentimento de impunidade que sentimos no ar. Humberto Delgado foi despejado num buraquito à beira de uma estrada, à vista de quem por ali passasse. Isso que nos disse? Que em Espanha se vivia no mesmo terror que em Portugal. Que os sicários do poder cometiam as mesmas atrocidades dos dois lados da fronteira sendo até cúmplices se caso fosse. Foi este o momento que me fez pensar na guerra civil espanhola, tema que nunca me tinha interessado. Poderia ter procurado compilações de factos enfadonhas e desmotivantes, em vez disso procurei romances cuja base são esses factos. Por isso hoje vos deixo com as palavras de Victoria Hislop, sobre o sangue derramado em Espanha, no seu livro O Regresso. Claro que referir este livro sem referir a minha querida amiga Dina seria obsceno. A Dina, que me conhece mais ou menos ao mesmo tempo que eu, decidiu que, neste período da minha vida, eu só deveria ler “coisas leves e lindas”. Posto isto faz-me chegar um saco de livros que estariam de acordo com as suas sábias directrizes e onde estão dois da Victoria, o que hoje vos deixo e A Arca, sobre a guerra civil grega, que ficará para outras núpcias.

Victoria Hislop

O Regresso

“Aviões nacionalistas estavam a passar a baixa altitude por cima deles, pesadões, barulhentos e desengonçados.

As pessoas observaram-nos e admiraram-se. Ninguém falou. A seguir começou o bombardeamento.

Durante aqueles meses, desde que este conflito tinha começado, Mercedes nunca tinha experimentado as sensações de terror absoluto que agora a atormentavam. A sua boca encheu-se do gosto metálico do medo (…) Não tinham nada que os protegesse e, tal como os habitantes de Málaga, tão recentemente traumatizados pelos horrores dos bombardeamentos e do fogo das metralhadoras na sua cidade, Manuela ficou brevemente paralisada com o novo ataque da violência fascista. (…) em breve havia corpos estendidos por todo o lado como bonecas partidas.

Para horror e incredulidade de toda a gente que estava na estrada nesse dia, havia ainda um método de ataque mais aterrador para vir. Quando os bombardeiros acabaram o seu trabalho, apareceram aviões de combate para reclamar a próxima vaga de vítimas.”

 

Sinopse

Sónia é uma jovem mulher inglesa, com uma carreira de sucesso e um casamento com tudo para ser perfeito. Descobre algures nesta sua vida perfeita uma paixão pela dança latina que a leva até Granada. Em Granada fica encantada com a cidade e com as pequenas histórias que estão subjacentes a todos os locais e que fazem parte da sua alma.  O amor de Sónia à dança e o desamor ao seu marido, e a tudo o que ele representa de bolorento e desinteressante, cavam o fim do seu casamento.

Depois da sua primeira ida a Granada com Magie, Sónia regressa, depois de conhecer a origem genética do seu interesse pela dança, para uma longa conversa com o ancião Miguel sobre El Barril e a história da guerra civil espanhola. Fica a conhecer a história de Mercedes, uma jovem dançarina de flamengo (embora sem ser cigana) que o faz com um sentir tão vincado que derrete todos os que assistem ao seu bailado, e dos seus irmãos: o músico e homossexual Emílio, suave e quase invisível, que só se evidencia quando pega na sua guitarra; o impetuoso Ignácio, toureiro de morte, franquista convicto, adorado pelas mulheres; o intelectual António, homem de esquerda com convicções fortes sem extremismos. Os pais dos quatro, Pablo e Conchita, casal forte e com convicções vincadas, que conseguem manter longe do domínio público, sofrem na pele os piores horrores que se podem infligir a alguém.

À volta de uma mesa, Miguel desfolha a história de uma família espanhola, que afinal pode ser a de qualquer outra. O amor lindo entre Merche (Mercedes) e Javier preside a maior parte do texto, dança e a música são o mote principal, mas o que mais marca é a guerra.

As descrições dos horrores da guerra, da fome, da sede, do frio, das doenças são terríveis e vividas. Dos campos de concentração em França, para onde os refugiados foram conduzidos, é possível construir imagens muito semelhantes às dos campos que os nazis haveriam de construir num futuro já muito próximo. É possível ver a desumanização, tanto das vítimas como dos algozes…

Sobre este livro senti que poderia ser um pouco menos longo se houvesse menos repetições, contudo é uma leitura impetuosa e imparável.

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

1 COMENTÁRIO

  1. Livro de grande interesse,pelo que ficou dito.
    É bom que a Europa adormecida acorde para a possibilidade de yer wue encarar de novo a violência geralmente proveniente de inimigos da liberdade.
    Obrigada pela sinopse, está deveras muito clara.

    Muito folgamos em vê- la de novo por aqui.
    Um forte abraço.

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