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Opinião: Haja pudor!

Sou um leitor assíduo e atento do jornal digital «Penacova Actual» e de há muito que sou tentado a escrever algo para o mesmo, em defesa do nosso chão de raiz, regressado que sou da diáspora, qual filho pródigo.

E permitam-me que me apresente com uma passagem do prólogo de um livro de poemas que talvez ainda saia este ano: «O meu rio, sim o meu rio é o Rio Mondego. Poderia ser outro, ou poderia nem sequer haver rio, mas não, quis o destino feliz que o meu rio fosse o mais belo rio português. O mais belo e, para além da sua beleza natural, o maior exclusivamente nacional.

Foi nas suas águas que aprendi a nadar, sem mestre, na represa da roda (nora) da Frida, árdua e solidariamente construída pela força de braços fortes espetando estacas a golpes ritmados dos maços, cortando, transportando e entrelaçando tojos e sedimentando as camadas de mato com areia retirada do fundo do rio às pazadas. A montante da represa ficava sempre um fundão. Um dia, aí pelos meus 6 anos, quase me ia afogando, mas não, estou aqui por graça de umas braçadas desajeitadas. Ou, o mais certo, porque: «Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo».

Sim, aqui estou para ficar nos meus quase 70 anos, a completar em novembro, de alma e coração inteiros e ativos, na terra que me viu nascer e que amo. Sou do povo, com imenso orgulho, e é misturado com o povo que me sinto bem.

Vamos lá então ao que importa e motivou o título deste meu escrito. Na edição de ontem, dia 25 de Abril, dia das liberdades, da esperança, da democracia e da descolonização, noticiava este jornal: «O PSD de Penacova assinalou o dia da liberdade com a colocação de cravos vermelhos na estátua de António José de Almeida em São Pedro de Alva e no monumento aos ex-combatentes, em Penacova». Notícia esta ilustrada com uma fotografia do «pelotão» do candidato à Câmara Municipal Álvaro Coimbra, em frente ao monumento aos ex-combatentes.

Haja pudor. Fui combatente na Guiné, como Alferes Miliciano, e estava lá no dia 25 de Abril de 1974. Felizmente o meu nome, graças aos Capitães de Abril (tive a honra de privar com alguns) não consta na pedra fria do monumento, mas estão lá os nomes de dois bons amigos de infância, da Rebordosa. E, na Guiné, vi tombar outros cujos nomes constarão de qualquer outro monumento, algures na nossa Pátria. Por isso repudio este despudorado aproveitamento político, quer como antigo combatente, quer como membro da Associação dos Combatentes do Concelho de Penacova. Os mortos, todos os mortos, merecem o nosso respeito, sobremaneira aqueles que tombaram vítimas de um regime caduco que os mandou para a Guerra Colonial como carne para canhão. (E a «Vila» também tinha os apaniguados do regime; eu e mais alguns estávamos do outro lado, com os «bufos» da PIDE a vigiar-nos).

Candidato Álvaro Coimbra, não nos conhecemos pessoalmente (e nunca o vi antes de cravo ao peito; seja, contudo, bem-vindo), mas sempre respeitei o seu trabalho enquanto jornalista. Mas deixe que lhe diga, com toda a frontalidade, que começou da pior maneira, agindo com manifesto e imperdoável desprezo e aproveitamento político dos ex-combatentes. Coragem para mudar não é isto. Isto tem um nome: oportunismo político. E, se na vida o oportunismo, mais tarde ou mais cedo, tem um preço elevado (que a verdade é como o azeite, vem sempre á tona da água) em política paga-se com língua de palmo. Haja respeito. Os ex-combatentes não precisam de um presidente que se sirva deles, antes sim de um presidente que os respeite, que os conheça pelos nomes, que se misture com eles e que os sirva, nos derradeiros anos de vida.

António Correia da Silva (Sarróia), Rebordosa

4 COMENTÁRIOS

  1. Na Entrevista que dei ao PenacovaActual e que foi publicada no dia 31/12/2020, eu disse, a propósito da minha decisão, em 1969, de “fazer oposição ao regime” que esse trajecto tinha sido feito conjuntamente com (… Sarróia …)!
    Esse meu companheiro de muitas vidas, meu Ilustre Colega, que esteve a organizar a sua vida em Macau, regressou recentemente à Rebordosa com a sua linda Família e é o autor da Opinião que comento agora.
    Ele sabe bem o que é que nós passámos noutros terríveis tempos políticos …
    Ele sabe, também, o que foi o terror da Guerra Colonial, especificamente na Guiné, onde tive o meu irmão mais velho que me contava -e conta- histórias de muito sofrimento.
    E, chegado há pouco à nossa Penacova, ficou “revoltado” com o local escolhido pelo PSD para comemorar o 25 de Abril deste ano.
    Como eu não tenho Facebook -e como só costumo ler as crónicas dos Meus Colegas e o que se escreve nas minhas próprias- procurei e encontrei, de facto, a notícia no nosso PA.
    Ficaram-me duas ideias chave sobre os assuntos tratados:
    – O PSD alimenta a questão mais polémica que o nosso Concelho já viveu -A questão APIN- sem lhe dar o enquadramento devido, que é como quem diz, sem informar devidamente;
    – O PSD quiz mesmo “assinalar” o Dia da Liberdade com cravos vermelhos “no monumento aos Ex-Combatentes”!
    Ora bem,
    Aqui chegados, EU QUE SOU AMIGO do Álvaro Coimbra e que não tenho acompanhado bem as Autárquicas de Penacova, para além de dar um contributo modesto em ideias consolidadas para o
    Programa de Desenvolvimento do Pedro Coimbra, TAMBÉM MEU AMIGO, tenho de reconhecer que o MEU AMIGO Sarróia tem razão!
    Com tanto Terreiro, aquele não devia ter sido o espaço seleccionado, porque choca “assinalar” Liberdade em frente dos nomes dos que nenhuma liberdade tiveram para escolher onde morrer.
    Quero acreditar que esta foi uma falha da candidatura do Álvaro e que ele -se é que foi dele a decisão polémica- tudo fará, estou certo, para jogar limpo nesta contenda eleitoral.
    Ao Sarróia dou um abraço grande!

  2. É incrivel que os socialistas uns mais declarados do que outros, se acham donos de tudo até daquilo que acham certo ou errado e da forma como os outros devem fazer ou pensar ou falar.. A tolerância é uma palavra que se fartam de usar mas só para os outros dado que eles próprios são os mais intolerantes.
    A liberdade que o candidato Álvaro Coimbra tem para ir ao monumento dos combatentes é a mesma que o senhor autor desta opinião e o comentador acima, poeta e também colaborador deste jornal tem para pensarem e se assim o entenderem exatamente o contrário, sem terem que se justificar.
    Mas claro, só os socialistas são donos de tudo, até da verdade, do certo e do errado.
    Façam bom proveito.

    • Haja Pudor! Lamentável que nos dias de hoje os políticos, que são cidadãos como os outros tenham que pedir licença para se expressar. Parece que a liberdade, o 25 de Abril, e principalmente a Cidadania , têm dono. Sou conterrâneo de AJ de Almeida e convido todos os políticos e todos os cidadãos a depositarem flores na sua estátua e a visitarem o Vale da Vinha. Serão todos, mas mesmo todos, bem-vindos!! Porque saber receber é o ADN da Freguesia de São Pedro de Alva, e também do Concelho.

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