Publicidade

As palavras que descem da Serra: O Olhar de Sophie, de Jojo Moyes

Hoje da Serra continuam a sair palavras suaves, daquelas que a Dina me receitou. São palavras que versam sobre o amor, sobre a perda, sobre a dor da perda. Nem sei se são as palavras que a minha querida amiga queria que eu lesse…

Quando eramos miúdas, eu e a Dina , liamos quase tudo o que encontrávamos, fomos grandes “clientes” da Biblioteca Municipal, onde alimentávamos devidamente o espirito, e, paralelamente, comprávamos, em segunda ou terceira ou enésima mão, livros que entram na categoria de “literatura de cordel”, das colecções Júlia, Sabrina e Bianca. O argumento era sempre o mesmo uma jovem pobre, muito honesta, ingénua, trabalhadora, linda de morrer, embora inconsciente disso, e um homem podre de rico, muito maduro, muito cínico e depois lá se entendiam e acabavam tão enrolados que era difícil de perceber qual era a perna de quem. Hoje não sei se esses livros, com descrições de sexo a raiar a pornografia, ainda se escrevem, ou ainda têm mercado (ignorância pura!!!) mas nas livrarias “a sério” surgem alguns livros que acabam por entrar nessa classificação (embora não tenham chegado ao editor embrulhados em papel e amarrados com cordel).  E vendem muito bem. Oiço muitas vezes a designação de “livros para senhoras” (uma vez aplicada a Isabel Allende!!!) e fico incomodada. Se um livro fala de amor, coisinha do mais banal que há, e aqui nesta parte do globo, a base dos casamentos e das famílias, fica de imediato relegado para um plano inferior?? Passa a ser leitura de senhoras??  Ainda se nota por aqui alguma misoginia??  No que ao meu gosto pessoal diz respeito, só não tolero repetições de argumentos, quando um escritor ou escritora, aposta num determinado argumento/formato eu torno-me intolerante e não leio mais (a não ser que tenha confiança no conteúdo factual, como por exemplo na saga Noronha do JRS…). Por isto, para mim, alguns autores são de uma única leitura, outros são de toda a vida.

Hoje as palavras a soltar pertencem a Jojo Moyes, em O Olhar de Sophie.

Jojo Moyes

O Olhar de Sophie

“Ela encolhe os ombros. – As pessoas afastam-se. – Não lhe podia dizer que esta era apenas uma das razões. Estas são as coisas que ninguém nos diz quando se perde o marido: que a par do cansaço dormimos até mais não e há dias em que para o simples facto de acordar é preciso obrigar as pálpebras a abrir, e viver cada dia torna-se um esforço hercúleo. Passamos a odiar os amigos de forma irracional: de cada vez que uma pessoa nos bate à porta ou atravessa a rua para nos dar um abraço e dizer como lamenta o sucedido, nós olhamos para ela, para o marido e a filhinha e ficamos chocadas com a ferocidade da nossa inveja.”

Sinopse

O texto é estruturado em dois tempos diferentes, na realidade trata-se de dois romances distintos unidos por uma pintura muito marcante. O primeiro romance decorre na primeira guerra, durante a ocupação da França pelos alemães. As descrições são as do costume, muito frio, muita fome, agressões infindáveis, roubos e pilhagens. Os ocupados sobrevivem como podem. A frente de batalha é, neste texto, completamente ignorada, toda a trama decorre no espaço ocupado sem combates. Os velhos, as crianças e as mulheres são os actores nativos que co-existem com os soldados ocupantes e opressores.

O segundo romance decorre na Inglaterra actual, com outras dificuldades de sobrevivência.

Em 1916 Sophie é uma jovem mulher independente, determinada, inteligente, protectora e muito apaixonada pelo seu marido, Edouard, que se encontra, em combate, algures pela França. Vive numa pequena vila, Péronne, situada no norte de França e ocupada pelos alemães. Em analepse somos levados até tempos felizes, em Paris com o seu marido e as suas pinturas. É nesse tempo de felicidade que é retratada, de acordo com os ensinamentos da escola de Matisse, e o talento inato de Edouard. Esse quadro vai acompanhá-la até Péronne e vai ser motivo para conversas com o Kommandant que se apaixona pela mulher retratada, e que já quase desapareceu debaixo de tanta fome, frio e trabalho duro. Quando sabe que o marido foi transferido para um campo de prisioneiros e de morte Sophie, que sabe das vontades do Kommandant, pede-lhe ajuda para salvar o marido, fazendo ela “qualquer coisa” para pagar o favor, inclusive dar o quadro que tanto ama. O alemão quer o quadro e algo mais, mas fica impotente quando vê o que Sophie tem para oferecer, que está a anos luz da mulher do quadro.

Sophie cai, definitivamente, em desgraça. Por amor caiu… o seu destino vai ser ainda mais duro e difícil.

Em 2006 Liv corre, debaixo de um aguaceiro tremendo, pelas ruas de Londres para ir ter com amigos a um restaurante. O que têm em comum estas duas mulheres?? Tem “A mulher que ficou para trás”. Um dia, em Barcelona, o marido de Liv compra-lhe o quadro e oferece-lho. É a única mancha de cor num apartamento dedicado à luz e absolutamente minimalista. Nesta segunda parte da obra ficamos a conhecer Liv, viúva há 4 anos e ainda apaixonada pelo marido, falida, mas muito determinada em manter a posse de A Mulher, agora muito valorizada e requisitada pela família do pintor como obra roubada durante a guerra. Esta determinação leva-a a escavar o passado de Sophie, que para a sua família e conterrâneos é como se nunca tivesse existido.

É uma viagem interessante pelo interior de pessoas, pelos valores, pelo caracter ou pela falta dele, pela importância da beleza, apenas por ser bela, pelo preconceito e hipocrisia. Claro que o final é feliz, afinal são histórias de amor…

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Publicidade

NOTÍCIAS MAIS RECENTES