Opinião: Quem se Odemira? (E porque é que ninguém se acusa?)

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Um País de cegos acordou um dia destes e tem mostrado “admiração” pelo que se está a passar em Odemira, sem continuar a querer ver o resto do Alentejo e do Algarve.

O Presidente da República esteve calado; os Partidos de Direita, igualmente; os Partidos do Centro, também e os Partidos de Esquerda, aspas, aspas, aspas!

Ou seja,

A Política -e os seus titulares- fez o que melhor sabe fazer: escondeu-se atrás da sua própria vergonha …

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!… Sim, vergonha, porque é essa, na verdade, a correcta análise que deve fazer-se quando se analisa o modo de atração, recepção e integração da emigração em Portugal …!

Vejamos:

– Somos um País de desemprego galopante que, há décadas, não consegue reconverter trabalhadores para o sector agrícola;

– Somos um País que “vendeu” a agricultura em troca de alguns milhares de milhões vindos de Bruxelas (através da PAC – Política Agrícola Comum) abatendo o Olival, a Vinha, etc, etc, etc.;

– Somos um País que criou um “monstro” -O Alqueva- de que ainda vamos ouvir falar muito, Alqueva esse que está a conseguir, do ponto de vista da capacitação agrícola, uma transformação tal que, rapidamente, trará a saturação dos solos;

– Somos um País que, do ponto de vista da fixação humana no Alentejo, só conseguiu (a peso de ouro) ajudar Empresários Agrícolas (muitas vezes de idoneidade duvidosa) a comprar solos ricos por tuta e meia e a cometerem imprudências grotescas para resolver os problemas da carência da mão-de-obra;

A questão da mão-de-obra, como se aprende cedo nas Faculdades, constitui a variável mais crítica do investimento!

Não vale a pena investir num local onde não existam trabalhadores adaptados às funções conexas com a actividade a desenvolver; A solução para a falta de mão-de-obra é a criação da atractividade do local, investindo nas Pessoas (locais ou externas à localização).

Atractividade significa o contrário de desumanidade.

Ou seja, tudo o que não se passou nesta transformação do Alentejo e o que também se está a sentir já no Algarve.

A Política agiu sem prudência; a Banca emprestou para não receber; o País atarefado que anda com discussões estéreis, não percebeu!

E quando um País inteiro não percebe o escândalo em que se transformou o acolhimento ILEGAL e massivo de Emigrantes, alguma coisa está mesmo muito mal …

A verdade é que temos no nosso seio (NÓS PAÍS DOS EMIGRANTES DOS BIDONVILLE) pessoas a serem chuladas, pessoas a serem maltratadas, pessoas à mercê das especulações mais tristes que a humanidade já permitiu e, sobretudo, pessoas a viver muito, mas mesmo muito abaixo do nosso nível geral de vida, nível esse que consideramos -para nós- como inadmissível.

Pior,

É que tudo isto se passa sem ninguém saber, imagine-se.

Não sabem as Autoridades Locais (nem souberam); não sabem as Autoridades Nacionais (nem souberam); não sabem os governantes; … nem sabem os governados!

Ninguém se acusa!

Porquê?

Pura e simplesmente porque se entendem estes emigrantes como lixo humano;

Pura e simplesmente porque não se tem vergonha de isto acontecer na nossa terra;

Pura e simplesmente porque ELES não votam …

… e não votando não alimentam a Política …

!… e não a alimentando, não estão abrangidos pela Convenção dos Direitos do Homem, nem pela Declaração Universal dos Direitos Humanos …!

Haja decoro.

Luís Pais Amante

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8 COMENTÁRIOS

  1. Num país em que gestores se auto promovem e auto premeiam, com a maior naturalidade e sem constrangimentos, mesmo em empresas com avultados prejuízos, a situação de Odemira pode-se considerar normal e banal, não se conseguindo distinguir nestes crimes qual é o mais criminoso. Na verdade, os dois são chocantes e fazem doer o estomago a todo o cidadão que se preze ser honesto
    Os exemplos vindos da cúpula, são tomados como medida para as (más) ações como a que assistimos em Odemira. Na esfera de gentes de barriga cheia, cuja superioridade gostam de exibir, com toda a arrogância que os caraterizam, a moral e o respeito pelo ser humano são considerados com outro entendimento, muito subjetivo, quais “senhores “esclavagistas que assinaram as páginas mais cruéis da humanidade. A consciência não os abala, tendo em conta que o seu foco está no lucro farto e imediato. Cegos e impiedosos, não conseguem ver nos outros senão uma espécie seres humanos… sem direitos.

  2. Olá Dr. Luis, boa noite.
    Essa poesia, é muito lindo e verdadeiro para os imigrantes.
    Infelizmente, todos os governantes que dirigem o País, nunca se preocuparam com os imigrantes, quando os imigrantes conseguem trabalho sao explorados e explorados. As pessoas lutam pelas vidas do imigrantes denunciam, e lutam por esses seres humanos. Onde está o governo, se não fosse essa denuncia de Odemira, o governo tem obrigação sim de fiscalizar e mandar investigar e punir esses exploradores, nós demos votos e confiamos no governo.
    Dr. Luis só posso dizer PARABÉNS pelo seu trabalho, sua luta e garra.

  3. Caro Dr.
    Esta situação há mais de 8 anos que foi falada em.sede das Plataformas Supraconcelhias do Litoral Alentejano, estrutura dirigida pel Instituto da Segurança Social – Centro Distrital de Setúbal e que congrega todas as autarquias, serviços descentralizados do Estado, IPSS, Escolas, Universidade… A denúncia foi feita várias vezes por vários parceiros.
    Sabe no limite muitos ganham, todos? só os.trabalhadores sazonais é que sofrem embora para muitos deles esse sofimento vale a pena pois terão melhor condição de vida na sua terra, apesar da exploração a que são sujeitos.
    Temos um Senhor Ministro que acha que os portugueses são todos estúpidos, não serão? que faz o que estw Governo fas de melhor: faz de conta…Os(as) Secretários(as) de Eatado são figuras decorativas, estão apenas a receber o que acham que têm direito pelos serviços prestados ao partido e ao seu chefe.
    Há solução mas custa dinheiro e vai diminuir o lucro de todos.
    Sabem quantos milhões entram em exportações por ano para Portugal doestas explorações agrícolas?
    Vamos fazer de conta que está resolvida a situação e continuar tudo como antes. Basta mudar os contentores e as casas alugadas para sítios menos visíveis.

  4. Num país onde há evidências de terceiro mundismo, onde a desumanidade e a total ausência de solidariedade nos atira para a cauda da Europa, há um grito de desesperante de toda uma nação que se encontra perdida entre compadrios e subvenções milionários de uma classe política que se tem distinguido essencialmente pelo jogo de interesses de “amigos” e parcerias que aumentam a desigualdade entre os cidadãos e os emigrantes que ajudam a alavancar a nossa economia.
    Subscrevo na íntegra a sua revolte e indignação Dr. Luís Amante.

  5. O Sr. Luis Amante escreveu umas coisas acertadas e outras que desconhece…é natural que não saiba a denúncia que vem sendo feito DESDE 2012 do Trabalho do PCP que sempre foi solidário e lutou com a falta de condições de Trabalho e alojamento, em Odemira e noutros locais do país, das explorações do agro-negócio. O PCP denunciou e até fez propostas a nível de eleitos locais e nível nacional. Outra questão importante e que não foi focada e a maioria da grande comunicação social faz censura por Omissão…é que tudo isto é feito, destruindo um dos mais importantes parques naturais do País, o Parque natural do Sudoeste Alentejano, com o agro-negócio das culturas É necessário reavivar a memória de algumas pessoas. Em 2020 o Deputado JOÃO DIAS (PCP) denunciava (e propunha medidas) na ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA os atuais problemas em Odemira.Esta foi última proposta em 2020…https://www.youtube.com/watch?v=E1VNaxDeLwo quando apresentava o projeto de Resolução do PCP n.º 270/XIV/1ª (https://www.pcp.pt/recomenda-ao-governo-medidas-urgentes-especificas-no-reforco-dos-servicos-publicos-no-aumento-do?fbclid=IwAR0Ug2fasGbDw0CSgisXgor3rBkN5JbCtTzjZEMVHTuqNIshkTHVtuumCZU)

  6. Estava o País posto em sossego, na expectativa do tão ansiado abrandar de restrições para o regresso á normalidade possível, e eis senão quando algo de estranho aconteceu, pois se descobriu, com espanto generalizado, a abjecta realidade das condições de vida e de trabalho dos milhares de trabalhadores migrantes que, discretamente, asseguram o funcionamento das estufas de cultura intensiva que proliferam na zona de Odemira, e não só.

    Carpiram as carpideiras do costume, indignaram-se os(as) indignados(as) do costume, opinaram os(as) opinantes do costume, lamentaram-se e admiraram-se as forças vivas locais…

    Mas, como já alguém disse, aqui está um caso prático de aplicação do “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago.

    É que, afinal, ao longo dos últimos anos algumas pessoas terão visto e aperceberam-se, vagamente, de qualquer coisa pouco normal e até terão sido feitos uns ofícios/denúncias ás entidades competentes, para descargo de consciência e não parecer muito mal.

    E a vidinha continuou, pacatamente, “business as usual”, como dizem os anglo-saxónicos.
    Pois, meus caros, o problema está exactamente no “business”, no negócio…

    Se não, vejamos:

    Empresários agrícolas a concretizarem colheitas sem as preocupações inerentes ao facto de gerir directamente a mão-de-obra utilizada, que se revela dócil, sem reivindicações e a bem baixo custo.

    Particulares e comerciantes a arrendarem casas a muito bom preço, talvez sem o declararem ao fisco, ainda que sem condições para albergarem os grupos de trabalhadores migrantes que nelas se amontoavam.

    Intermediários estrangeiros e E.T.T.´s, práticamente virtuais, a assegurarem o fornecimento dessa mão-de-obra, reservando para si a melhor fatia das negociatas relativas á importação dessas pessoas que, na prática, ficam em condições laborais bem próximas da escravatura.

    Diz-se, na zona, que supostamente este tipo de situações já estaria identificado há muito tempo, pelo que cabe perguntar se, por exemplo, nem a Secretaria de Estado para a Integração e as Migrações, nem a A.C.T., e nem o Delegado de Saúde, a nível local e/ou regional, deram por isto tudo?

    Claro que, pelo meio, houve algumas declarações partidárias, piedosas, mas laterais, para cumprir calendário. E por aí se ficou o sobressalto político-partidário da questão.

    E se não fora o retrocesso do desconfinamento local, que afectou o “usual business” (pois…), tão cedo não se ouvia falar dos trabalhadores migrantes no Alentejo. Se é que alguma vez se ouviria, porque, numa zona tão dependente do turismo, não convém estar a falar de tão vergonhosas questões.

    De facto, a triste a verdade é que aquelas pessoas mal falam português, não pagam quotas para os sindicatos ou para os partidos, e não votam. São sombras…

    Mas estas sombras vão assombrar as nossas consciências porque, um dia, nos perguntaremos porque é que, enquanto povo supostamente civilizado e respeitador dos direitos humanos, deixámos que acontecessem estas barbaridades e demorámos tanto tempo a acordar para esta triste realidade.

    Obrigado pelo alerta, Luís.

  7. Mesmo distante de Portugal, país que admiro pelo seu povo, sua cultura, sua história, sua poesia, sua música, sua culinária e sua localização geográfica, tenho um canal de aproximação frequente que se chama: o poeta penacovense Luís Amante.
    Ao ler Quem se Odemira senti-me chocado.
    As afirmações claras e diretas sobre a utilização selvagem de seres humanos vulneráveis tocou-me profundamente pois meus pais e eu, fomos refugiados da Segunda Guerra.
    Compreendo perfeitamente o desamparo e o sofrimento dessas pessoas.
    Luís, vc é uma voz que não se cala com as injustiças.
    Obrigado, obrigado, obrigado

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