Opinião: Precisamos de um intervalo

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Eu preciso de um intervalo. Um intervalo das redes sociais que transformam a espuma dos dias em guerras de trincheira e ódios que nos saem das vísceras. Dos noticiários sensacionalistas que desumanizam o próximo enquanto dão palanque aos mesmos de sempre. Da justiça que toma decisões com base em emaranhados incompreensíveis de leis e decretos e regulamentos infindáveis e no fim o resultado é aquele que já todos esperávamos, mas não o que queríamos. E dos políticos que se aproveitam de tudo o que escrevi atrás para fazer crescer ondas de medos injustificados e que nos atrasam todos os dias a todos os níveis.

Hoje queria escrever sobre a polémica do Zmar. Queria demonstrar por A + B que estamos perante mais uma triste manifestação de xenofobia, pois se a requisição civil fosse para alojar médicos e enfermeiros para o combate à covid certamente não gerava esta indignação.

Queria dissecar a tremenda irresponsabilidade que é ter o bastonário da Ordem dos Advogados – e presidente da Associação Lisbonense de Proprietários –  a falar de abusos de direitos humanos devido a uma suposta violação do direito à propriedade privada quando o governo já esclareceu que a requisição temporária do Zmar para alojar imigrantes que precisam ficar em quarentena se aplica apenas à parte não privada do empreendimento.

Queria falar do absurdo em que é discutir “habitações próprias e permanentes” e “pessoas retiradas das suas casas e postas na rua” naquilo que é um parque de campismo/caravanismo de licença caducada, não passível de fraccionamento ou loteamento para construir habitações e situado em plena Reserva Ecológica Nacional e Reserva Agrícola Nacional.

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Queria ainda explorar a esquizofrenia generalizada que, na mesma semana em que viralizou uma audição da comissão parlamentar de inquérito ao BES/Novo Banco que nos dá uma boa medida da total impunidade que goza a elite financeira do nosso país, faz com que cidadãos lesados em milhares de milhões de euros dos seus impostos, venham agora criticar o Estado por requisitar aquilo que, no fundo, lhe pertence. É que o tal empreendimento foi construído com a ajuda de milhões de euros a fundo perdido vindos do QREN e do Turismo de Portugal a meias com o BES. Tudo isto gerido de forma exemplar, com os esquemas do costume e pelos nomes do costume, até entrar no processo de insolvência em que se encontra neste momento. E ainda têm o desplante de nos dizer que agora que o Estado pôs pessoas a viver temporariamente em casas que foram feitas para albergar pessoas de forma temporária, se vão afastar hipotéticos investidores.

Queria manifestar a minha profunda tristeza com a situação dos migrantes, remetidos a meras notas de rodapé no meio deste imbróglio, jogados de um lado para o outro na calada da noite, alojados em casebres que não serviam nem para animais, sem que uma única voz de relevo reclame saber quem são os proprietários dos imóveis que eles arrendam ou quais são as empresas que os exploram.

Queria fazer tudo isto, mas estou cansado. Cansado de remar sozinho. Cansado da falta de humanismo e do individualismo exacerbado. Cansado de perspectivar trazer filhos a um mundo que retrocede a cada dia com a ajuda consciente daqueles que mais têm a perder com isso.

A pandemia expôs uma situação grave de violação dos direitos humanos a acontecer no nosso país, que por sua vez expôs um esquema de transferência de dinheiros públicos para bolsos privados a decorrer, em direto e em horário nobre, mesmo à frente dos nossos olhos.

E nós permanecemos. Mudos. Plácidos.

Eu preciso de um intervalo. Precisamos todos.

Rui Sancho

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3 COMENTÁRIOS

  1. Comece por sugerir ao seu camarada de partido, João Galamba, para se moderar nas redes sociais que tanto o estão a melindrar e já agora alguma ponderação ao ministro Cabrita que pertence ao governo do seu partido.
    Já agora peça também ao seu governo que lhe explique o teor da lei que decretou em 2017 e que facilita coisas como as que estão a acontecer em Odemira.
    Ou então, continue a massajar o governo e este socialismo que brevemente, estará na Venezuela da Europa. Quando se aí chegar, o Penacova Atual provavelmente já não existirá porque não fará parte da comunicação social que interessa e as redes sociais não serão mais do que uma recordação.
    Seja feliz então e finalmente.

    • Não estou filiado em nenhum partido, mas é bom saber que ainda estou associado ao PS apesar da curta passagem pela liderança da JS já ter terminado há alguns anos.

      Se a Ana tem essas preocupações então deveria levá-las às pessoas que refere você mesma. Tenho a certeza que não precisa que eu o faça por si.

      Cada um tem o direito de acreditar naquilo que quer. Eu quero um modelo mais justo e equitativo para todos. Se já a venceram com o medo da Venezuela, então nunca se vai permitir a ambicionar ser como a Suécia. Veja lá é se pelo caminho não se encontra numa Colômbia…

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