Ambiente e Sustentabilidade: Agricultura Biológica ou Convencional (I)

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Pretendo, com este artigo, fazer uma breve análise histórica de como era a agricultura nos terrenos do Mondego, e também nos terrenos de sequeiro, na região de Penacova. Concluirei, posteriormente, sobre o potencial destes terrenos e qual o modo mais adequado de produção, o biológico ou o convencional.

Durante a maior parte da primeira metade do século XX, no território nacional, ainda toda a agricultura se assemelhava à agricultura em modo de produção biológico. Ou será que não? Não existiam ainda fertilizantes de síntese. Ou, pelo menos, não eram usados na agricultura chamada de subsistência, nas comunidades agropastoris. Nos campos agrícolas marginais do Mondego era semeado milho, inicialmente, em maior escala, e plantava-se também batata. O produto usado para tratar as maleitas das batateiras e da vinha era a calda bordalesa, uma mistura de cal viva com sulfato de cobre. Hoje em dia, é permitido usar este produto na agricultura biológica, bem como outros de origem química, mas não de síntese (o enxofre, por exemplo). Os fertilizantes usados eram estrume ou o mato, mas isto acontecia mais nas terras de sequeiro e não tanto nas de regadio. Nestas, porém, havia ainda quem espalhasse cal parda e cinzas. Os terrenos junto ao rio eram inundados na época das cheias pelas águas, onde os nateiros (conjunto de partículas finas de argila, areia e componentes orgânicas) ficavam retidos no solo e o fertilizavam naturalmente. Contudo, a água do rio transportava também areia, que era preciso remover dos campos, para não haver o risco de tornar a terra estéril. A erosão nos locais montanhosos era mais intensa devido ao uso milenar das queimadas, para fins de rejuvenescimento de pastos. No que diz respeito à vinha plantada à beira rio na zona de Penacova, esta nunca produziu vinhos de qualidade. As castas plantadas foram sempre, maioritariamente, castas de produção medíocre, onde sobressaiam as castas americanas tinta e branca, castas essas que teriam permanecido nos terrenos e servido de porta enxertos, noutros tempos. A realidade é que a região nunca englobou nenhuma área demarcada de produção vinhateira, mesmo estando relativamente perto das regiões demarcadas da Bairrada e do Dão. Serviu sempre mais para o consumo interno das comunidades locais. O vinho que se produziu de melhor qualidade na região era o proveniente da vinha plantada nas terras mais altas, de natureza xistosa.

Quanto às culturas de sequeiro, verificava-se a presença do olival em socalco e mesmo em relevos de declive acentuado, como o antigo olival da Costa do Sol, onde se cultivou, noutros tempos, cereais como o trigo e o centeio. A cultura da fava, do feijão, da batata e da vinha era também frequente nos terrenos de sequeiro.

As sementes eram guardadas de ano para ano, pelo próprio produtor, garantindo, portanto, que seriam biológicas não modificadas. As mondas eram manuais ou feitas com recurso a ferramentas simples. Não existiam ainda herbicidas e só começariam a ser usados com alguma regularidade a partir dos anos noventa. Podemos dizer com segurança que até terem surgido os primeiros fertilizantes de síntese, ou adubos, a agricultura praticada tinha grande semelhança com o modo de produção biológico.

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Em termos de produtividade, devemos classificar uma agricultura assim muito menos produtiva. Mas os tempos eram outros. Muita gente trabalhava os campos. O dispêndio de energia era, globalmente, maior em mão de obra, uma vez que para além de haver mais pessoas a realizar as tarefas agrícolas, estas eram também mais prolongadas no tempo. A obtenção de estrume e mato para usar como fertilizante era um trabalho que estava associado à criação de gado e tinha como efeito secundário a limpeza dos terrenos arborizados. Como o mato, as estacas de madeira e as próprias tábuas eram utilizados para represar o rio e fazer as rodas e os canais para captar e transportar a água para regar os campos. Estas atividades tinham um efeito permanente na limpeza das áreas florestadas e no rejuvenescimento dos pastos. Portanto, podemos referir que aquelas comunidades agropastoris seriam forçosamente muito mais ecológicas, embora, por outro lado, a interferência humana com a vida selvagem existente nos montes fosse grande, uma vez que a vegetação rasteira era permanentemente limpa. A juntar a isto, há que referir a utilidade que se dava a quase tudo o que eram subprodutos. Pouca coisa se estragaria, sendo deitada fora. Nesse tempo, não existia qualquer recolha de lixo por parte de quaisquer serviços camarários ou outros. O que tivesse interesse comercial era aproveitado. O que não tinha interesse era enterrado, queimado ou era lançado às águas.  Era essa a norma, e o hábito permaneceu vivo e continua a ser usado, porque os cursos de água, grandes e pequenos, continuam a ser o meio recetor mais disponível para largar efluentes que se pretendem ver tratados, apesar de os resíduos que produzimos serem agora, potencialmente, mais perigosos. (Continua)

Ulisses Baptista (fotos de Varela Pécurto, obtida AQUI)

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