As palavras que descem da Serra: Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro

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Hoje da Serra as palavras que vão correr vêm aqui de perto, algures da região da Figueira da Foz, e pertencem a Nuno Camarneiro.

Peguei neste livro por ter sido agraciado com o prémio Leya, no fundo acreditei no juízo de um conjunto de pessoas das letras e destas coisas da cultura e fui. Fui e sinto que valeu a pena. Camarneiro revela-se um Saint Emilion, vinho difícil mas prenhe de sabores, de emoções, de segredos, que a cada gole pede um outro de confirmação, como se a certeza estivesse mais à frente e sempre a fugir, mas que se revela em pequenas nuances de força tão intensa que parecem mundos completos. Foi assim que senti este livro. Um conjunto de histórias de viagens sem GPS pela simples razão de serem viagens pelo interior de cada uma das personagens.

As personagens são seres humanos de uma vulgaridade doentia, homens e mulheres adultos com histórias de vida vulgares, mas uma interioridade assustadora, que verbaliza muitas das vivências internas de cada um de nós. É difícil ler este livro sem que haja uma comunhão com alguma, ou várias, das vivências aqui referenciadas. Também existem crianças, com idades diferentes, e também nelas se consegue ver as atitudes/ características /medos comuns a todas as crianças e desvalorizadas pela sociedade.

Nuno Camarneiro

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Debaixo de Algum Céu

“Todas as janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive. A semana em que decorre esta história é bruscamente interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas das personagens – como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado, perdoar, reagir, ser também mais vizinho.”

Sinopse

A escrita é feita recorrendo a diferentes vozes, previamente anunciadas, sempre precedidas pela voz do narrador, omnipresente e de tudo sabedor, que, contudo, nunca levanta o véu na totalidade, deixa sempre que vivências de cada personagem sejam reveladas em primeira mão.

A narrativa começa, pela voz do narrador, com a situação espácio-temporal do cenário, a sua caracterização demográfica e social e a apresentação de cada um dos personagens, integrados num determinado andar e apartamento. Depois somos levados, pelas diferentes vozes, pelos medos, sonhos, manias, dores, alegrias, fracassos e sucessos de cada um. As histórias cruzam-se num ou noutro corredor da vida, numa ou noutra esquina, as loucuras de uns são juízo de outros, um padre adultero, uma mãe assassina, uma mulher perdida da sua qualidade de género encontrada de novo na velhice, uma assassina por amor, uma mãe atenta e carinhosa, esposa dedicada e mulher petrificada que renasce quando a carreira do marido muda de direcção, um Menino  Bento demonizado por todos os medrosos e cobardes, que lhe imputam todos os males do mundo que por azar lhes batem na porta, uma bebé que põe em confronto a mulher e a mãe  por não conseguirem  viver no mesmo corpo.

Os homens sofrem de patologias vulgares, ou são acomodados e felizes com a sua vidinha, ou são desassossegados sem saberem o que querem, ou se dedicam a fantasias de computadores criando vidas virtuais que hão-de ocupar um lugar na sociedade real num futuro mais ou menos próximo. Marco Moço merece-me um comentário com nome por ser um homem marcante, quer pela sua capacidade de procurar memórias quer pela sua história pessoal, toda a vida fugiu do amor, na recta final dela, da vida, concluiu que fugir-lhe é tão mau como deixar-se embalar por ele, assim opta pela última hipótese e vai amar.

Na missa do padre Daniel o Menino Bento dá ao mundo o direito à diferença, ao lado da D. Margarida e de Marco Moço, mais dois renegados da sociedade. Juntos farão renascer o Deus que todos sabem inexistente, até o Padre, mas mesmo assim capaz de milagres.

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

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1 COMENTÁRIO

  1. Estas escolhas têm sido tão boas que nos arriscamos a não comprar livros sem consultar a dra. Anabela primeiro.
    Obrigada pela ajuda que nos dá é de grande utilidade.
    Um grande ABRAÇO

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