Crónica dos dias andados: A Porta

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Não tenho a crónica pensada para lado nenhum e só por isso, o risco de a escrever é provavelmente maior do que se tivesse uma mínima ideia pré-concebida para ela, já que quase sempre que a estou a escrever estou já a pensar na forma como ela vai acabar, seja de forma previsível

coisa que não me agrada especialmente

seja de forma inesperada, imprevista, fora das convenções e, algumas vezes, completamente fora do propósito inicial para o carácter “lado nenhum” de uma crónica que se quer para lado nenhum mas que não morra numa qualquer incoerência que a torne impossível de decifrar, arredia de dicionários, de compêndios de semântica, de prontuários linguísticos, de linguistas de cátedra cheios de cruzes e benzeduras na necessária salvação dos vocábulos, agregadores de encómios enxertados numa fama refogada no fundo raspado de um tacho velho, da sua natureza prosódica, da fraseologia mais ou menos encardida de que são feitas as paredes do que se escreve e como escreve e existindo regras, não existem regras a não ser a única razão para o nenhum lado para onde se dirigem, isto é, o único ponto final de que são feitas, tentando escapar ao óbvio, à forma anódina como muita coisa é expressa, os lugares comuns, as estradas sem curvas, os voos de grávida, a viralidade nas redes, a indignação de pacote, os peixes de boca a abrir e a fechar, como se fora de água, pássaros a acertar as voltas no térmico das correntes, de asas fixas num desafio de carácter para os presos à terra de onde vieram e para onde vão numa redução de poeiras e memórias, a música no rádio acertando-se nos tempos, as vozes que se diluem no vento proferindo as sentenças da própria morte de que são feitas, isto se entretanto não nos vergarmos no seu entendimento e não, não vale a pena aconchegar o casaco que trava a descida da temperatura rumo aos arrepios, eles que nos trepam a espinha sem um módico de rede e livres do medo de que é feito o vazio dos silêncios, o horror histórico que não revoluciona a humanidade, a geometria de que são feitos os triângulos das tragédias, as deambulações mais ou menos enevoadas no tom sépia de que é feita a vergonha que nos embrulha vezes que nos escapam, as perguntas que mastigamos infinitamente sem lhes darmos o raio de luz das respostas; a intervenção tão simplificadora da morte no fim de todos os caminhos de que somos feitos

as quebras de ritmo com que decoro estas crónicas

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e prometo, prometo que estou quase no fim, porque ninguém suporta uma crónica assim, numa emergência de estado, num confinamento que passa a progressiva auto-negação, devolvendo-nos obedientes e paulatinos à realidade de que fomos e voltaremos a ser feitos, alijando do saco das memórias, as quatro paredes que nos mostraram as novas (im)possibilidades de que podemos ser (des)construídos, certos de que tudo um dia, incluindo esta crónica, terminará com um único ponto final, fechando ou abrindo uma porta, conforme e partindo do princípio que alguém aguenta até aqui.

António Luís

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2 COMENTÁRIOS

  1. Gostava que o senhor me explicasse que utilidade tem estas crónicas num jornal como este.
    Usa palavras caras e no fim não diz nada que a maioria das pessoas perceba.

  2. Ana Morais!
    Grato pelo seu comentário.
    A utilidade das minhas crónicas? Elas tem de ser “úteis”, porquê? E o que é uma crónica “útil”?
    Pode sempre não ler o que escrevo. Tem (toda a) liberdade para isso.
    Cumprimentos.
    AL

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