As palavras que descem da Serra: Dias Tranquilos em Clichy, de Henry Miller

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Hoje, da Serra, saem palavras que tenho dificuldade em adjectivar, quentes?; adjectivo insuficiente; picantes?, provocadoras? tórridas??, à falta de melhor fica este. São algumas das palavras tórridas de Henry Miller e os seus  Dias  Tranquilos em Clichy. Quando leu este livro o meu António, sugeriu que deveria ser acompanhado por uma música, La Boheme de Charles Aznavour. Tinha razão, um casamento perfeito. Por isso vos deixo a sugestão, a quem se ache capaz de aguentar Miller, não esquecer que tem bolinha vermelha, mas que se lê de um fôlego, no final La Boheme…

Henry Miller nasceu no dia 26 de Dezembro de 1891 em Nova Yorque.  Viveu em Paris de 1930 até 1940. Convertendo estes números em vida, Miller viveu em Paris dos 39 até aos 49 anos. Este é um tempo de ouro, é o tempo de sentir com deleite tudo o que os sentidos podem oferecer, é o tempo em que os “sete buracos da nossa cabeça” nos oferecem o mundo em bandejas de prata, e a pele se manifesta como capaz de sentir o inexistente com tanto ardor que passa a ser real. Morreu em 1980 nos EUA. Foi um escritor maldito e não publicado no seu país até 1960. A terra do tio Sam era (ou será?) demasiado puritana e eventualmente hipócrita para aceitar uma escrita mais fogosa que poderia chocar a sociedade. Poderia ser um desvio grave para as boas práticas tementes a Deus (será que deveria ser deus??). Acredito que os decisores da Terra da Liberdade proibiram a publicação de Henry Miller apenas por serem muito bondosos e não quererem sujeitar os pobres cidadãos a uma escolha entre ler ou não ler. Imaginemos uma boa e decente mãe de família a fazer o seu jantar e afogueada de todo por uma descrição de Miller, receber o marido de ligas e um copo de vinho na mão, com um leve escorrido de chocolate ao canto da boca…  onde iriam parar os bons costumes?? Como ficaria a lotação do inferno? O pobre do Carontes nunca mais teria direito a férias e o Cerbéro não poderia dar descanso a nenhuma das suas cabeças. E no Céu?? A pasmaceira celestial sem bons e honestos cidadãos americanos a prestarem contas ao chaveiro Pedro instalava-se em definitivo. Estes dramas violentos foram evitados até o tribunal decidir que cabia aos leitores a escolha entre ler ou não. Parece-me que devem ter sido muitos a ler de forma escondida, como eu fiz  (não com este livro!!!) na minha adolescência para ludibriar os olhos da minha mãe…

Henry Miller

Henry Miller, por George Brassaï

Dias Tranquilos em Clichy

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“Outras entravam pavoneando-se e com o ar fresco de quem está pronto para uma noite de trabalho. O canto onde costumavam reunir-se parecia uma bolsa de valores, o mercado do sexo, que tem as suas subidas e descidas como todas as outras bolsas. Um dia chuvoso era, normalmente, um dia bom, parece-me. Costuma dizer-se que só se podem fazer duas coisa quando chove e as pegas não perdiam tempo a jogar às cartas.”

“A sua voz era mais arrebatadora do que o seu sorriso: tinha um bom timbre, era ligeiramente grave e um pouco rouca. Era a voz de uma mulher que se sente feliz por estar viva, que se entrega aos desejos, que é descuidada e modesta e que fará tudo para preservar o fragmento de liberdade que possui. Era a voz de uma mulher que dá, que gasta; apelava mais ao diafragma do que ao coração.”

Sinopse

Nos seus textos, Miller mistura autobiografia com imaginação e o resultado é muito interessante, é pelos seus órgãos dos sentidos que vivemos o meio envolvente.  Neste livro começa por nos falar dos cinzentos que preenchem a vida, em milhares de matizes e cambiantes, e por lembrar um em específico que marca a vida dos americanos e que em Paris é inexistente, pela sua simplicidade e humilhante limitação. Paris é retratada como uma cidade viciosa e viciante, onde o sórdido se torna belo e o repelente atrativo. Os cafés que serviam de mercado do sexo são descritos com cores calmas e desconcertantemente limpas e calorosas. As pegas são profissionais dedicadas e empenhadas em dar bom nome ao ofício. Joey é o narrador participante que se perde por um rabo de saias mesmo que a troco de francos. Carl é o companheiro de partilhas de Joey. Partilham apartamento, fome, fartura, mulheres e interesse pelas palavras e pelas artes. É um boémio muito desenrascado candidato a escritor que se mantem vivo graças a uma estratégia interessante:  periodicamente coloca a sua bela máquina de escrever no prego e assim tem hipótese de sentir a necessidade imperiosa de escrever e a criatividade a fervilhar.

As personagens femininas sucedem-se a uma velocidade louca, as descrições de acrobacias de alcofa são explicitas e o vernáculo é rei e senhor. (Terá sido este o principal motivo que manteve Miller longe do mercado de casa…)

A escrita é extraordinária, de tal forma que até os palavrões mais escabrosos, aqueles que provocam mal-estar pela sua sordidez, acabam por se tornar apenas palavras que descrevem de forma impiedosa uma dada situação. No meio de tanta crueza linguística surgem subtilezas hilariantes quando o acto de urinar de uma senhora é descrito como “ fazer chichi”…

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

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