As palavras que descem da Serra: Um Tempo a Fingir, de João Pinto Coelho

0
52

Hoje da Serra vão sair palavras de João Pinto Coelho. Nem sequer é um estreante nestas viagens Serra abaixo. É, no entanto, um quase estreante nas artes da literatura. Como já tive a hipótese de referir, conheci-o numa apresentação de um dos seus romances, Perguntem a Sarah Gross, na minha escola, e fiquei encantada com a facilidade de discurso, com a sua capacidade de serenar uma plateia numerosa e irrequieta e mais tarde com o livro. Depois disso, li e amei Os Loucos da Rua Mazur (que ficarão para outras núpcias…) e recentemente perdi-me na trama de Um tempo a Fingir que ora vos deixo. O contexto histórico dos seus romances tem sido a Segunda Guerra. Nos dois primeiros o Holocausto é o ponto de partida e a história avança em analepse. Neste último, a guerra está presente, mas a história começa antes. O cenário é longe do centro brutal do extermínio, mas a presença dos nazis e dos fascistas é sentida em cada canto. A história é-nos contada em duas mãos, a de Aninna, que voa nas asas da imaginação e cria o tempo que quer ter, e a do seu irmão, Ulisse, que vai repor a verdade do tempo. As personagens são riquíssimas, com almas densas cheias de desejos e vontades férreas capazes de vergar até o tempo. O retrato social mostra-nos uma comunidade judaico-cristã a conviver em paz e harmonia com o respeito pelas tradições e valores de cada, sem choques e cheia de entreajuda, a guerra vem por fim a este ambiente de paz, embora a entreajuda se mantenha.

“- Vivemos em cima de uma pedra, não dá para criar raízes- queixava-se muitas vezes. Alessia, que achava o mesmo, chegava-se mais à muralha e punha-se a olhar para o vale: mas é o sítio ideal para aprenderes a voar. – depois olhava para os velhos e dizia: – Senão, secas, como eles.”

“No Frigidarium, mandava a tradição que todos os clientes fossem divididos de acordo com o seu estatuto. Não era questão de dinheiro pois ali ninguém entrava sem levar os bolsos cheios; era mais a agilidade que tinham para os esvaziar. Também eram tidos em conta os modos e a aparência, bem como o trato dado às meninas quando subiam aos quartos.”

“- E lembra-te – disse Gianna -, nesta casa as meninas não sujam as mãos com dinheiro. Podes estar sossegada que nunca ficas a arder. Antes de eles se irem embora chamam a Pavotti à parte para pagarem a despesa. Seja do que beberam seja do que foderam.”

Publicidade

João Pinto Coelho

Foto de Bruno Colaço/4SEE

Um Tempo a Fingir

Sinopse

Pitigliano é uma cidadezinha italiana ancorada num rochedo altíssimo. Aos seus pés tem um vale profundo e verde que alimenta sonhos de voos altos a quem o observa de cima, do penhasco isolado. Esta pedra é isolada no espaço e em tudo o resto. As suas gentes, cristãos e judeus, vivem numa proximidade que raia o promiscuo. Todos querem saber o que se passa nas casas alheias e muitos querem que se saiba. Os Falaschi dominam a sociedade, são ricos e querem que o mundo se vergue ao seu poder, que assenta tanto em ter (muito roubado!!!) como em medo. Marzio, sobrinho da família Falaschi pelo lado materno, é cão que não conhece dono, embora disfarce muito bem. A sua noção de poder é tão exacerbada que nem considera a hipótese de os seus desejos não serem adivinhados e concretizados. Annina é uma miúda a tornar-se mulher, uma judia linda que se sabe linda. Adora ser o centro das atenções e provocar o mundinho fechado em que vive. Despreza o Falaschi de forma ostensiva.  Vai tornar-se uma costureira briosa a trabalhar para a Falaschi, quando perde a beleza e ganha outro móbil de vida. Peppino é um negro montado na sua bicicleta que vende sonhos resgatados do impossível. É ele que mostra ao mundo a beleza de Aninna, e depois o mundo fica virado do avesso…

Quando a guerra eclode, a segregação afeta os judeus e Aninna, cruelmente deformada, encontra refúgio no bordel Frigidarium, onde Alessia, a sua amiga de sempre, há muito se tornou Cicio, um rapazinho imberbe que faz as delícias dos homens. É neste local tranquilo que a vingança de Aninna ganha corpo.

Os nazis levam a melhor e as amigas acabam nas câmaras de gás, a história sobrevive graças aos diários de Aninna. O diário é purificado pela voz do irmão, Ulisse, um quase inútil, que repõem a verdade quando a mente de Aninna fica demasiado produtiva. É uma história de beleza, fealdade, amor, ódio e vinganças.

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

Pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui