As palavras que descem da Serra: Até Amanhã Camaradas, de Manuel Tiago

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Hoje da Serra saem as palavras de um português que muito se sacrificou para isto, para poderem sair palavras desta e de tantas outras Serras. É um nome que para muitos não tem valor, mas a liberdade portuguesa sabe o que lhe deve. Deixo a correr palavras de Manuel Tiago, em Até Amanhã Camaradas, publicado em 1975. Manuel Tiago é o pseudónimo de Álvaro Cunhal, que foi uma figura incontornável da luta pela democracia em Portugal. Muito lhe devemos. Sei que neste momento pairam em muitas cabeças cenários de extremo da Coreia do Norte ou da Venezuela, mas não é disso que vos falo, falo de Portugal, falo de portugueses subjugados pela bota do fascismo e do papel fundamental que Álvaro Cunhal teve na força da liberdade. Quem arriscar a ler sabe que tem pela frente um peso pesado da literatura, tanto em tamanho como em conteúdo. Este é passível de provocar alguma insónia, sobretudo se pensarmos no quão egoístas conseguimos ser, no quão pouco vocacionados estamos para nos sacrificarmos em prol do bem comum. Um dia encontrei um casal fabuloso, o Jaime Serra e a mulher, Ilda. Viveram os anos de ouro das suas vidas na clandestinidade, deixavam os seus filhos com familiares assim que chegava a hora de irem para a escola, acompanhando muito de longe o seu crescimento, perderam tanto que só de pensar nisso o mar dos meus olhos transborda, mas neles vi apenas paz e tranquilidade. Quando perguntei à Ilda porque se sacrificou ao ponto de largar os filhos a resposta foi suave: “ Foi para tu poderes criar os teus minha querida.”

Álvaro Cunhal nasceu em 10 de Novembro de 1913, em Coimbra e faleceu a 13 de Junho de 2005 em Lisboa. O homem foi a obra ficou, cuidemos dela com carinho e dedicação!!!

Manuel Tiago

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Até Amanhã Camaradas

“Súbitas rajadas de vento bufaram do Sul. Com estardalhaço, uma chapa de zinco vinda não se sabe donde, voou de um lado da estrada, deu quatro pinotes grotescos e foi engarrafar-se, silenciosa e miserável, na valeta do outro lado. Logo uma bátega varreu a estrada. Os homens, já encharcados pelos chuviscos que caíam desde o alvorecer, procuraram abrigo junto aos troncos esbeltos dos pinheiros. Só dois rapazitos se deixaram ficar a britar pedra, rindo dos homens que fugiam à chuva”

“- Que queria o senhor? – Procuro o Sr. Manuel Rato. – E que lhe queria? O desconhecido olhou a mulher como para perguntar se devia responder, mas só lhe viu uns olhos negros cheios de ansiedade. – Sou o sapateiro de Santarém – repetiu. – Traz as medidas? – perguntou o homem da saca. – Sim, trago – disse o desconhecido, e tirou do bolso uma palmilha recortada em papel, à qual faltava um bocado. – Bom – disse o homem da saca. Entrando em casa, perguntou alguma coisa à mulher em voz baixa e sumiram-se ambos no interior. Voltou logo em seguida com um pedacito de papel na mão, que ajustou ao sítio cortado da palmilha de papel que o desconhecido lhe estendia. A palmilha ficou completa. – Bom – repetiu o homem. – Entra. E ele mesmo levou a bicicleta para dentro.”

Sinopse

Este é um romance histórico em que o autor narra minuciosamente a vida do Partido Comunista Português durante a II Guerra Mundial. Ao longo da obra o leitor fica a saber como funcionava a estrutura do PCP, desde os critérios de segurança, as regras da clandestinidade, as casas de apoio, as fontes de rendimento… É também confrontado com a prisão e a tortura. Sobeja ainda o lado humano de cada uma das personagens. Toda a obra é uma trama que envolve várias figuras, no entanto sobressaem três: Vaz, Maria e Ramos. Cada uma destas personagens tem um contributo a dar e permite ao autor exemplificar como funcionava a estrutura do Partido, sem esquecer o seu lado humano. Vaz personifica a figura totalmente devota ao Partido e à Causa. O rumo da sua existência é norteado para o Partido, fora desse contexto não tem vida. É uma personagem seca, incapaz de qualquer emoção, embora o leitor mais atento consiga encontrar vestígios de dúvidas e hesitações, que o tornam humano. Ramos é também um homem do Partido mas capaz de sentir e demonstrar alegria e outras características que fazem dele uma personagem mais perto do ser humano vulgar. Vive para o Partido mas cria no leitor a ideia de que o centro da sua vida é um pouco mais egoísta. Só no final conseguimos ver como é grande a sua dedicação à causa. Maria representa a camarada que dava credibilidade e suporte aos amigos na clandestinidade. É uma mulher jovem que vai sentir na alma as paixões da vida mas que se sacrifica por amor ao Partido e às causas que este defende.

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança 

 

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