Histórias… do Arco da Velha (I) – Carvalho Mota, o Bruxo da Chã

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Deixaram o carro na Ponte e subiram até à Chã. Não encontrando quem procuravam, de
imediato rumaram a Coimbra, onde – deduziram – “ele” andaria a fazer das suas. Logo o
avistaram, perto da Estação Nova, quando se preparava para apanhar a “camioneta” para
Penacova. Belmiro das Neves, acompanhado de outros homens que tinham sido burlados, chama-o e ele finge não ouvir, ao mesmo tempo que tenta a fuga. Mesmo em frente do Hotel Astória conseguem “deitar-lhes as unhas à gola do casaco” e “aí é que foram elas: malharam como quem malha em centeio verde”. Entretanto aparece a polícia e vai tudo preso para o Governo Civil.

O “arguido” ficou a aguardar que fosse remetido para a cadeia de Arganil e julgado na área onde havia praticado o crime de “exercício ilegal de medicina”. Acusado de usar “processos de bruxaria e vigarice” foi de imediato preso e condenado a pagar uma multa de novecentos escudos. Claro que o dinheiro não apareceu e teve de cumprir naquela cidade noventa dias de cadeia. O Belmiro e os acompanhantes foram libertados.

Natural de Póvoa de Abraveia (Poiares) e morador, com mulher e filhos, na Chã, este indivíduo, de 42 anos de idade, conseguiu ludibriar inúmeras pessoas em diversas aldeias da Beira Serra: Torrozelas, Venda da Serra, Alqueve, Alagoa…

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Tudo começou quando certo dia apareceu na Venda da Serra um indivíduo bem trajado e muito bem falante. Ia acompanhado de duas raparigas que diziam ser da região e “iam ensinar àquele o caminho para o Galdim, onde ele ia visitar um doente”. Fazia-se passar por médico do Preventório de Penacova e dizia chamar-se Carvalho Mota. Apresentava-se “como um lord, bem vestido, falando com grande desembaraço” e dizendo-se com poderes para “reparar os males e curar as mais graves doenças.”

Uma das suas “virtudes” – conta a Comarca de Arganil, de 1940 – “era tirar o mal duns e dá-lo a outros”. Deste modo, “os crédulos não se atreviam a dizer ou a fazer quaisquer comentários, tanto mais que ele tinha o poder de adivinhar logo o que se dizia de si.” Esperto! Assim, dificilmente alguém se atreveria a denunciá-lo!

A sua reputação começou a ser tal que até “pernoitava nas várias casas onde prestava os seus serviços” tendo muitas pessoas cedido “as suas cómodas camas, para irem dormir em casas de palheiro, depois de o contemplarem com lautas ceias.”

Fazia sessões de exorcismo, onde não faltavam velas acesas, o livro da «Fátima Milagrosa» e as “receitas” que ele próprio trazia de Coimbra, aviadas na Casa Santa… Certa vez, para ficar com o dinheiro, teve o descaramento de enviar um telegrama à família do “doente”, comunicando que não tinha conseguido comprar o “milagroso” remédio que ele próprio receitara…

No meio de tanta patranha, terá sido a história da transformação das moedas de um escudo em notas de um conto de réis e as moedas de dez centavos em notas de cem escudos que o tramou. “Começou a dizer que benzia o dinheiro” e que, observadas certas condições, esse dinheiro se multiplicaria a olhos vistos. O mesmo deveria ser-lhe entregue, sem isso ser revelado a ninguém, no mais completo segredo, e ele o levaria a benzer na Casa Santa, em Coimbra.

Nesta altura, os créditos do “bruxo” estavam absolutamente firmados, mas “era necessária mais uma demão para a fita ser devidamente representada” – escreve a Comarca de Arganil.

O primeiro dinheiro que levou, tornou a regressar, generosamente engordado, de modo a voltar as vezes seguintes já com a confiança instalada. Então, “é que foi a grossa e a larga colheita”. O dinheiro “afluía em catadupas”. No entanto, tudo tinha de ser feito com extremo recato. Era uma exigência do bruxo e, além disso, os bafejados pela sorte também não queriam que dela beneficiassem muito mais pessoas, além da família e amigos. E assim muitas famílias foram enganadas. Muitos lesados nem se queixaram, com vergonha de se saber que tinham caído no conto do vigário. Outros, como o Belmiro Neves, mexeram-se e puseram fim à história. Pelo menos por aquelas bandas.

Por terras de Penacova “Carvalho Mota” parece que não se aventurou. O correspondente de A Comarca de Arganil (16 de Março de 1940) no Casal de Santo Amaro interpretou tal facto como sendo a confirmação do velho rifão: “Santos de ao pé da porta não fazem milagres.”

David Gonçalves de Almeida (Ilustração Le Charlatan de Farge Henri, 1920)

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1 COMENTÁRIO

  1. Muito interessante e muoto divertido.
    A antiga versão do corrupto…ou do ladrão?
    Sempre houve, sempre haverá.
    Triste sina a da Humanidade.
    É por isso que gosto de cães…

    O texto está muito bem escrito, muito atractivo.
    Venha então o próximo!

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