Opinião: Os Vampiros da Madrugada

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“No céu cinzento sob o astro mudo/Batendo as asas pela noite calada/Vêm em bandos com pés de veludo/Chupar o sangue fresco da manada
Se alguém se engana com seu ar sisudo/E lhes franqueia as portas à chegada/Eles comem tudo eles comem tudo/Eles comem tudo e não deixam nada
A toda a parte chegam os vampiros/ Poisam nos prédios poisam nas calçadas/Trazem no ventre despojos antigos/ Mas nada os prende às vidas acabadas
São os mordomos do universo todo/ Senhores à força mandadores sem lei/Enchem as tulhas bebem vinho novo/Dançam a ronda no pinhal do rei
No chão do medo tombam os vencidos/ Ouvem-se os gritos na noite abafada/Jazem nos fossos vítimas dum credo/E não se esgota o sangue da manada”

“Os Vampiros”, Zeca Afonso

As Comissões Parlamentares de Inquérito – mais recentemente as que averiguam as perdas do Novo Banco e que obrigam depois a injecções de capital pelo Fundo de Resolução suportado em dinheiros públicos – inserem-se numa iniciativa parlamentar que tem sido marcada por audições de grandes devedores à banca – ou seja, os que vivem à nossa custa – e trazem-me à memória o poema “Os Vampiros”. Encontro a mesma actualidade nos versos de Zeca, tal-qualmente como quando foram escritos.

A ditadura de Salazar, com base no trabalho miserável em Portugal e exploração das riquezas das colónias, criou os cinco maiores grupos económicos portugueses, encabeçados por famílias com nomes sonantes, famílias essas que nunca existiriam sem a cobertura do regime, que criou uma elite com uma riqueza obscena e fez do Estado um bando armado contra a população. Tendo chegado ao ponto de fazer uma lei de condicionamento industrial. A atitude que os senhores antes do 25 de abril já tinham e do poder político, que deixou que o Estado fosse capturado, assumiu novamente preponderância a partir dos governos de Cavaco Silva, ou seja, começou a haver dinheiro e o Estado foi recapturado pelos mesmos de sempre. Há uns apelidos sonantes que já pertenciam aos senhores, que nunca perderam a senhoria. Na verdade, muitos dos apelidos que surgem nas maiores fraudes financeiras actuais já eram os que beneficiavam anteriormente e agremiaram uns tantos “mordomos”, que facilmente foram aliciados.

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Estes “senhores” e tal como “Os Vampiros” de Zeca Afonso, aparecem com “ar sisudo” e “com pés de veludo”. Têm cá dentro quem lhes franqueie as portas e os umbrais e os deixe pousar nos prédios, nas calçadas, nas nossas casas e nas nossas vidas. E é até fartar: sugam-nos os salários e as pensões, os depósitos e as poupanças, os empregos, a honra e as vidas. O nosso “sangue fresco”. Enchem “as tulhas” dos políticos – e também, à nossa escala, dos bancos e banqueiros, das companhias do regime e dos seus donos. “E dançam, dançam” … Ouvidos nas Comissões Parlamentares de Inquérito, e sem qualquer prurido, gozam com a nossa cara, de forma descarada, tal é o à-vontade adquirido em décadas no ofício e pela impunidade total (a própria sociedade é complacente com esses elementos). Nada os prende aos restos, aos “despojos”, como “às vidas acabadas, que “jazem nos fossos”. Só deixam rastro de devastação. “Comem tudo” – mesmo tudo – “e não deixam nada”; mas, a cada nova audição, nunca “se esgota o sangue da manada”. E a cada olhadela de lado e desdém pelas perguntas, quando tentam limitar o arbítrio, não podemos deixar de pensar nos “mandadores sem lei”. Afinal, no fundo, não mudou muito. Nós é que pensávamos que tinha mudado alguma coisa, em 47 anos de liberdade. São os mesmos vampiros e é a mesma manada. Só mudaram os mordomos.

Quem foram as pessoas que permitiram as manigâncias e o que ganharam/ganham com isso?… E esses é que são os mordomos, que nós cidadãos, até agora, não conhecemos. Mas são esses que permitiram/permitem todo o resto. Para onde foram os milhares de milhões de euros, eles que não têm bens declarados e os que têm são risíveis? A essa pergunta sei responder: para o seu bolso e dos cúmplices. E, retiradas as despesas de “contexto”, ainda lá estão, numa simbiose – como já disse Rui Pinto – entre política e uns poucos escritórios de advogados, cujos associados são maioritariamente políticos ou ex-políticos que intervieram nas maiores negociatas para prejudicar os contribuintes. E eles dizem que não se lembram de como não pagaram os milhares de milhões que pediram à banca, ou por não lhes ter sido pedida nenhuma garantia para tal generosidade. Parte da banca, mas não todos os bancos, tem servido para estas estratégias, que pagam boas comissões e movimentam poder. O problema é que estes e outros têm usado o País através de uma engenharia de corrupção e traficância de influências resistente ao tempo e à decência. Aliás, há meia dúzia que pode fazer o que quiser desde que esteja a coberto de umas tantas entidades que na mesma operação defendem o Estado e a contraparte do Estado.

Quem tem poder sobre essas dívidas? Quem pode autorizar tais empréstimos a pessoas que de seu mais não têm – formalmente – do que uma mota de água, um palheiro, um carro em leasing, e depois perdoar? O sistema bancário está desenhado e ordenado legislativamente para isso, ou não está? Os deputados interrogam e ainda são gozados e achincalhados. Mais do que isso é difícil. E já devem estar a preparar as “tulhas” para a “bazuca”. É significativo o facto de conseguiremos ser o primeiro País a apresentar o projecto e as áreas onde deve ser gasto o dinheiro europeu, quando países muito mais desenvolvidos e preparados ainda estão a ponderar necessidades. Aliás, quando há necessidades tem de haver discussão e ponderação, o que parece que não aconteceu em Portugal.

E são estes os vampiros da madrugada de um dia que se queria “inteiro e limpo”, metáfora com que Sophia poetizou a Revolução. E, exactamente por isso, faz cada vez mais sentido celebrar os valores e os 50 anos do 25 de Abril. Porque esses valores, incompreensivelmente, continuam a ser cerceadas. Contudo, as comemorações que vão assinalar a data estão a cargo de uma Comissão bem composta, por cinco anos, e que, tendo em conta a duração do contrato, são dos poucos trabalhadores que não se podem queixar de trabalho precário ou temporário. De facto, essa Comissão irá funcionar até 2026, porque vai celebrar também as primeiras eleições da constituinte em 75 e a aprovação da constituição em 76. É ultrajante que se pague por mais de cinco anos milhares mensais a um comissário e a uma equipa para trabalhar em part-time, quando milhões de portugueses têm de sobreviver com menos de oitocentos euros mensais e apesar de trabalharem em full-time. E, por vezes, até mais do que isso. Sendo que são esses contribuintes que pagam essas mordomias e que são representados por “esses anjos em queda”. Isto tudo num país falido, porque está falido – valha-nos a ajuda externa – é um insulto e uma aberração tendo em conta que, e apesar de tudo, continuamos a estar na “sub-cauda” da Europa.

Marília Alves

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1 COMENTÁRIO

  1. Caros Leitores do PA

    Acompanho com atenção os “escritos” da Colega Marília (que ainda não tenho o prazer de conhecer pessoalmente.
    Na sua maioria tratam de temas que poderiam -e muitos já foram- tratados por mim.
    O tema de hoje é um desses casos!
    A história não se apaga, nem se deixa branquear!
    Eu não sou ninguém para dar conselhos a uma colunista do nosso PenacovaActual que eu considero muito acima da média (culta, com escrita escorreita, com ideias muito interessantes).
    Só lhe peço que não “meta” os assuntos todos no mesmo texto…porque lhe retira a eficácia!
    Questões destes devedorsecos da Banca é uma coisa, relacionada com a impunidade a que TODOS NÓS deixámos chegar o nosso País, sim senhor.
    Vampiros, sempre!
    Comissões de Inquérito que não servem para nada, é outra coisa que levanta uma série de questões como se transformarem em meios para “arranjar trabalho” para os Deputados, que são muitos e de fraquíssima qualidade, talvez, até, a ganharem por isso mais uns cobres.
    Bazuca(?), idem, idem.
    Comissão permanente das festas e festinhas, outra, também.
    Resumindo, Querida Colega:
    Continue a brindar-nos com a sua escrita maravilhosa.
    Faça o favor de “dosear” as crónicas
    E IRÁ muito longe nessa sua arte de coragem, com o nosso Povo/Leitor a aplaudir.
    PS. Espero que alguns “arautos” não considerem esta minha opinião como “censura”!
    A Colega Marília bem saberá que não o é!

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