Histórias do Arco da Velha: a tortura do velho foral

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Não acreditaríamos nesta história, passada na primeira metade do século vinte, se a mesma não tivesse sido registada pela mão de uma das poucas pessoas de Penacova que, à época, mais valor deu à cultura e ao património.

Em dezembro de 1192, Penacova veria ser-lhe concedido por D. Sancho I, o seu primeiro Foral

Certo dia, “fui a uma mercearia cá da terra e vi, sobre o balcão o Foral sobrecarregado com as balanças da loja! Fiquei surpreendido, mas não disse nada. Voltei no dia seguinte e lá estava o Foral na mesma tortura.” – acabou por contar Alípio Correia Leitão.

Não se sabe há quanto tempo estava desaparecido tão importante documento, mas pelos vistos não era caso de grande preocupação. Além disso, pelo que se percebe, não passava de um simples, mas útil, maço de papel!

“Ainda desta vez nada disse ao lojista. Ainda nesse dia voltei, não encontrando ninguém no estabelecimento. Peguei no Foral e levei-o para a Secretaria, onde ele devia estar sob minha guarda, e pu-lo numa caixa fechada onde tinha outros papéis que guardei no fundo duma gaveta. Nunca ninguém me perguntou por ele e, por isso, a ninguém disse onde o tinha.” – revela o Secretário da Câmara.

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Durante o tempo em que esteve desaparecido, algumas pessoas da Câmara até pensavam que tinha sido José Albino Ferreira que o tinha sob sua guarda, “não para ficar com ele, mas para o ter mais bem guardado”, quando na realidade o próprio Albino nem sequer sabia do seu desaparecimento.

Tudo isto se soube quando, certo dia, Daniel da Silva encontrou Albino Ferreira e lhe disse: -Sabe, apareceu o Foral! Uns dias atrás tinha sido a passagem de testemunho, por aposentação, do Secretário da Câmara, Alípio Leitão. Este, fizera a entrega ao seu sucessor de “uma caixa em que tinha guardados vários papéis, e bem assim, o foral que se julgava perdido.” Estava desvendado o mistério!

Com tudo isto não é de admirar que, já antes deste episódio, tivesse também desaparecido a primeira folha, que tinha uma iluminura riquíssima, como conhecemos de tantos outros forais manuelinos. Página que alguém cobiçou para a sua colecção…

Como chegou ao nosso conhecimento esta história? – podem perguntar os leitores.

É numa das crónicas de José Albino Ferreira, padre, notário, presidente da Câmara por diversas vezes, publicada no Notícias de Penacova em finais da década de trinta que podemos ler este episódio, bem ilustrativo do desleixo a que, ao longo de demasiado tempo, o Arquivo Municipal foi votado. O foral sobreviveu, mesmo sem a página de rosto. O exemplar do foral manuelino de 1513, existente em Penacova, foi restaurado no ano dois mil. Em 2008 o Município promoveu uma edição fac-similada, não só do Foral de D. Manuel, mas também do foral sanchino. Uma iniciativa meritória. Valha-nos isso.

David Gonçalves de Almeida

 

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