Crónica sobre não escrever uma Crónica

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Os pretextos sobram e com eles tudo serve para travar a necessidade que decorre de um compromisso e se pretendo escrever, tudo em mim e todas as minhas ações são exatamente no sentido contrário, isto é, não escrever, porque a escrita compromete, obriga ao funcionamento de mecanismos que, a bem de uma certa ideia de sossego querem é

– lá está!

estar sossegados no canto onde estão as coisas onde não queremos mexer e na contabilidade das desculpas, forma-se a fila indiana de outras obrigações que andam pela memória, à espera de vez para serem atendidas, resolvidas ou, em não poucos casos, adiadas porque a barriga, armazenado, serve também para empurrar algumas entidades e algumas sombras

– o imposto único de circulação a pagar até fim do mês!

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coisas e notas que vagueiam pela casa, pousadas sobre os móveis, em osmose com o pó, entrelaçadas pelo cotão aos cantos

– tenho de aspirar a sala, por isso a crónica pode esperar!

ou escritas em pequenos papéis metodicamente cortados e arrumados naquele refego das carteiras para onde desviamos os lapsos da memória e dependendo da forma como a abrimos ela ri ou parece chorar

– vários emails para responder e a seguir, de novo, a crónica suspensa.

provida de sentimentos – quase sempre de vazio – daquilo que principalmente lhe confere a razão de ser, aquilo que encolhe mais depressa que uma camisa de seda às voltas na cuba da máquina de lavar enquanto o programa da dita se atira para outras agilidades e temperaturas, o erro crónico, o erro desta crónica que nem deveria ser escrita

– as pessoas querem lá saber dessas tuas inconsequências, pá!

mas que segue rumo ao abismo de onde não há retorno, em riste para aquele silêncio de jazigo que se segue às desgraças; as palavras num falso alinhamento e do lado de fora da janela virada ao mar, as gaivotas no seu escárnio com que sobrevoam a linha de costa indiferentes à crónica que não se escreve e ao cronista às cabeçadas com a organização das frases; a densa árvore da semântica; a sua própria e escassa solvência como “escritor”; o desejo de que hoje sendo domingo amanhã possa ser sábado e de seguida, evidentemente, não escrever esta crónica; apenas um modo de evitar um erro crasso; os desejos quase todos a formarem-se em função de um desacerto do tempo e que me desculpem os Leitores e o Diretor deste jornal eletrónico que me dá a possibilidade de escrever tudo isto e de, pior do que isso, que alguém leia toda esta disformidade frásica, sobrevivendo a uma cacofonia de assuntos e nadas, mesmo que a crónica não “fale” de política; do duelo de Coimbras; de buracos nas estradas; do tecido (rasgado) da indústria; das insuficiências da terra; dos ares (nem sempre bons) que se respiram; das trocas de camisolas e consequentes novos beijos, abraços e acompanhadas facadas nas costas; da pobre mas mais do que salivada densidade territorial; do rio e das praias que ele oferece e, posto isto, se o tempo torcido para os antípodas da sua habitual direção não o fizer, afinal, o rio não a correr rumo à Figueira mas ao Mondeguinho, subindo o seu curso entre granitos e urzes e acabando tão perto da barriga das nuvens quando estas se roçam em comichões a que não acodem quaisquer mãos, pela serra onde se resguardam todas as estrelas e enquanto a crónica acabou por não ser escrita.

António Luís

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