Ilustres (des)conhecidos – João Gama Correia da Cunha (1839-1918)

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João Gama Correia da Cunha viveu no concelho de Penacova durante vinte e quatro anos, onde foi professor primário muito respeitado. Ensinou as primeiras letras a António José de Almeida na escola de S. Pedro de Alva e desde muito cedo se identificou também com os ideais republicanos.

João Gama Correia da CunhaNasceu em Mouronho no dia 29 de Maio de 1832. Filho de Jacinto Gomes e de Juliana da Gama, tinha como avó paterna Ana Gomes e como avós maternos Manuel Correia da Cunha e Joaquina Gama, todos naturais e residentes naquela localidade do concelho de Tábua.

Foi educado, desde os três anos, pelo padrinho, que era padre, e por uma irmã deste. O pai morreu nas Lutas da Patuleia ainda João era criança.

Adquiriu a formação escolar básica com o capelão dos “Fidalgos” de Espariz e foi aprender latim para Vila Pouca (da Beira). Revelando-se muito aplicado, o padrinho mandou-o estudar para Coimbra.  Entretanto, este morreu sem deixar testamento. Desamparado, João Gama viu-se forçado a regressar à aldeia onde, a par da ajuda à mãe na faina agrícola, ia trabalhando no que lhe aparecia.

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Passado algum tempo rumou a Lisboa e daí passou para Vila Nova da Barquinha, quando decorriam as obras da Linha do Leste1. Aí ganhou a confiança de uma das empresas construtoras e chegou a cargos de prestígio. Mas tudo isso acabou por abandonar, voltando à terra natal e pouco depois a Coimbra.

Já na casa dos trinta anos, frequentou nesta cidade o Curso do Magistério Primário, que concluiu com distinção. Logo de seguida, em Julho de 1873, foi colocado na Escola de Farinha Podre (S. Pedro de Alva) onde leccionou até Abril de 1897.

Em 1875 criou um Curso Nocturno para Adultos, que ministrava gratuitamente, contando com o apoio da Comissão Promotora de Instrução, que forneceu os candeeiros, e da Câmara, que disponibilizava o combustível necessário, durante os três anos em que decorreu o curso.

Incentivada pelo professor João Gama, a referida Comissão iniciou os contactos no sentido da criação de uma “casa de escola” para o sexo masculino. Por intermédio de Alípio Leitão, então deputado, uma Portaria de Fevereiro de 1879 expropriou alguns terrenos pertencentes ao Passal para aí ser construída a Escola Masculina. Em 1880, Alberto Leitão, Presidente da Câmara, atribuiu à Comissão de Instrução um subsídio de 200 mil réis para apoio àquela obra. Registaram-se conflitos como o Padre Francisco Diniz de Abreu, tendo a esse propósito sido publicada, em 1901, uma carta aberta, assinada pelo professor Gama, no Jornal de Penacova.

Como acima referido, João Gama Correia da Cunha foi o professor primário de António José de Almeida. Por este seu pupilo manifestou sempre uma especial predilecção, reconhecendo as faculdades por ele reveladas nos bancos da escola. Numa carta, datada de 24 de Julho de 1890, que foi publicada no jornal A Oficina , afirmou que muito havia “a esperar da ilustração e boa vontade” deste seu antigo aluno, pois, ”homens como ele” não apareciam “todos os dias”. E terminava dizendo que o tempo se encarregaria de mostrar que estas afirmações não eram pura lisonja, “nem ilusões dum insensato.”

Estamos no ano em que António José de Almeida, ainda estudante em Coimbra vai a tribunal e é preso, durante três meses, por ter escrito um artigo, considerado ofensivo, publicado em 1890, a propósito da posição do rei D. Carlos face ao “Ultimatum”.

Nas visitas à prisão da Portagem vamos encontrar os professores João Gama Correia da Cunha, Manuel Gentil da Natividade e José Júlio de Sousa Henriques, alem de outras pessoas do Alto Concelho.

Mesmo depois de ter deixado S. Pedro de Alva e ter regressado a Mouronho, João Gama manterá relações de amizade com a família Almeida, visitando em Vale da Vinha José António de Almeida. Quando este morreu, em 1901, João Gama usará da palavra à beira da sepultura no cemitério de S. Pedro de Alva.

Ao seu antigo aluno enderecerá algumas missivas por várias vezes. Ainda em 1907, quando António José de Almeida era secretário do Directório do Partido Republicano Português, lhe escreve uma carta afirmando que gostaria de o ouvir discursar no concelho de Tábua e pedindo intercessão para dar celeridade ao seu processo de aposentação, que corria na Direcção-Geral de Instrução Pública.

João Gama foi uma pessoa prestigiada, representando muitas vezes o professorado do nosso concelho. Saliente-se a sua intervenção na cerimónia de homenagem a Alberto Leitão em 1896, onde usou da palavra enaltecendo o papel daquele que fora Presidente da Câmara em relação à instrução pública e aos seus “servitas”, tantas vezes ”injustamente esquecidos pelos poderes públicos.”

Aquando da sua morte, o jornal Ecos de S. Pedro de Alva dirá que “quando ele via algum aluno com certa aptidão ia até junto dos pais, levando-os a dar ao rapaz um princípio de vida que no futuro lhe pudesse ser útil”. E acrescenta: “Muito sabedor e instruído – a sua conversa animava e instruía – foi um dos primeiros professores primários do círculo de Arganil, chegando até a publicar alguns livros sobre moral e aritmética, muito apreciados pela sua feição prática e educativa.”

Sobre os seus escritos, há também a referência no jornal A Comarca de Arganil (8/8/1918) a um estudo sobre história local intitulado Memória a respeito de Santa Eufémia da Serra da Moita e do paramento rico da Igreja de Mouronho.

Morreu no dia 11 de Agosto de 1918, em Mouronho. O periódico de S. Pedro de Alva noticiará que o seu funeral foi “muito concorrido” e salientará que João Gama morrera “sem o labéu2 de nunca pretender prejudicar ninguém.”

David Gonçalves de Almeida

1 O seu primeiro lanço, entre a estação provisória de Lisboa e o Carregado, foi inaugurado em 28 de Outubro de 1856, tendo a linha chegado à fronteira com Espanha em 24 de Setembro de 1863.

2 Labéu: mancha que desonra a reputação.

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