As palavras que descem da Serra: O Perfume, de Patrick Suskind

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Hoje da Serra correm palavras de um tempo duro, não que o de hoje o não seja… Correm palavras que me transportaram para um tempo de sujidade, de maus odores, de desinteresse pelo próximo a um nível semelhante ao de hoje sem a camuflagem dos direitos humanos, dos direitos das crianças, do direito à vida digna e sei lá quantos direitos mais. Direitos em que só o nome aponta para uma recta, na realidade são demasiados tortos para entendimentos normais. Hoje deixo-vos com palavras de um alemão, de nome Patrick Suskind e a sua obra mais conhecida, O Perfume.

Patrick Suskind

O Perfume

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SINOPSE

“Na época a que nos referimos dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o Homem dos tempos modernos. As ruas tresandavam a lixo, os saguões tresandavam a urina, as escadas das casas tresandavam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas tresandavam a mofo, os quartos de dormir tresandavam a bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas tresandavam a suor e a roupa por lavar; as bocas tresandavam a dentes podres, os estômagos tresandavam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, tresandavam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução”

Neste livro o autor vai-nos conduzir numa viagem pela França do século XVIII. Reconstrói as cidades, a sociedade, as mentalidades que vigoravam e o quadro de valores da época. O leitor é também prendado com uma descrição profunda de várias profissões, em que os odores marcam pontos. Em toda a obra os odores são descritos de forma tão intensa que é impossível não os sentir

A personagem central, Jean Baptiste de Grenouille, é uma criatura desprovida de qualquer tipo de odor, o que lhe confere uma aura assustadora para os outros seres. Nasce já condenado à morte no imediato, como aconteceu a todos os seus irmãos, paridos enquanto a sua mãe trabalha a amanhar peixe numa bancada imunda. O trabalho de parto não interrompe o trabalho da mãe. Finda a expulsão o cordão é cortado com a faca de amanhar o peixe e o nascituro empurrado com os pés para o monte de vísceras. Contudo os planos não correm como das outras vezes e a criatura berra com uma força que não deixa dúvidas sobre as suas intensões de sobreviver contra tudo e contar todos. O filho vive mas a mãe é condenada à morte. A sobrevivência da criança é garantida por amas de leite em que não pára muito tempo, há qualquer coisa na criança que assusta as mais intrépidas, para além de um apetite voraz que lhes faz diminuir o rendimento. Vai sobreviver a todas as perseguições e torna-se um perseguidor de aromas e odores, o seu nariz vai fazer dele o maior perfumista de sempre, embora sempre trabalhando na sombra, as suas origens serão sempre um entrave… ao aperceber-se da sua condição de ser sem cheiro, sente-se sem existência e desaparece do contacto humano vivendo numa gruta sem nada, lambendo as paredes de pedra para obter a água que lhe garante a sobrevivência e comendo aquilo que vai aparecendo. Um dia decide fazer o seu próprio odor, e ser amado como todos os seres. Abandona a gruta e dedica-se a assassinar as mais belas jovens e a retirar-lhes a fragrância. Consegue criar o perfume mais sublime, capaz de subjugar qualquer um, excepto a si. Ao tomar consciência desta impossibilidade decide morrer. A morte que se destina é terrível e a descrição assusta mas é o único destino possível para quem toda a vida procurou o Amor de forma desesperada … Sendo uma personagem aterradora capaz das maiores atrocidades é-nos difícil condená-lo, porque se mantém intocado pela mesquinhez humana.

Boa semana com livros !!!!

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