Histórias do Arco da Velha: Crime sem castigo

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Junto à noite, prosseguiram viagem na direcção de Mucelão, pela antiga estrada. Tinham comido e bebido na tasca da aldeia. Para quem fazia a “estrada da Beira” a Ponte da Mucela era ponto de passagem…e de paragem.

Mas… aquela rapariga, que parecia ser solteira, tão nova e com tanto oiro ao pescoço, ali a acompanhar aqueles dois rapazes … Não! Algo de estranho fez desconfiar todas as pessoas que estavam na taberna. Alguém mais bisbilhoteiro até os seguiu, durante algum tempo, mas nada concluiu…

O caso ficou por ali.

Chegou o Inverno e dum achado macabro correu logo notícia: com sinais de três facadas na barriga e no peito fora encontrada por uns caçadores, em adiantado estado de decomposição, o cadáver de uma mulher.

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Com identidade desconhecida, já nem foi levada para o cemitério. Depois de “encomendada” pelo cura José da Cunha, logo ali, na Ribeira Pequena, foi sepultada.

Quando a taberneira da Ponte da Mucela e outras pessoas dali foram ver o cadáver, fácil foi concluir que se tratava da infeliz rapariga que, juntamente com os dois homens, estivera na taberna naquela tarde de Verão.

Na altura, as autoridades, ao que parece, não investigaram o que quer que fosse, mas com o tempo tudo acabou por se saber.

E soube-se que, precisamente em 1837, tinham chegado à Bobadela (Oliveira do Hospital) dois irmãos regressados do Alentejo, estranhamente com dinheiro suficiente para comprar propriedades na terra.

Juntando as peças, não foi difícil concluir: os assassinos só podiam ter sido eles.

E não querem saber? Consta que um deles, muitos anos mais tarde, terá vindo viver para Paradela de Cortiça, onde até lhe chamavam o Bonadela. Muitas vezes lhe foi atirada à cara a suspeição do assassinato, mas o homem acabou por morrer, velho e cego, sem nunca se ter feito qualquer justiça…

David Gonçalves de Almeida

***

P.S.: De acordo com Nogueira Gonçalves, que em 1932 falou deste caso no “Correio de Coimbra”, por detrás da tese do roubo, mais óbvia aos olhos do povo, seria plausível acrescentar também um mobile de feição amorosa: a malograda rapariga ter-se-á apaixonado por um deles e terá feito questão de o acompanhar. Mas tal sentimento não seria recíproco e “carregar com aquele fardo”, com aquele empecilho, até à Bobadela, para ser causa de possíveis desavenças familiares, enfim, e sabe-se lá que mais, porque não se desfazerem dela, logo ali? Ao que se juntaria, obviamente, o aliciante de ficarem ricos com todo aquele ouro que a infeliz usava…

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1 COMENTÁRIO

  1. Que história tão interessante.
    O homem sempre igual a si próprio: egoísta e ganancioso,desejoso de enriquecimento fácil. Afinal não é assim tão diferente das histórias da actualidade!

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