Opinião: Os Errantes da História

0
132

A nossa sociedade alimenta uma intolerância ancestral em relação ao povo cigano, que persiste e fragiliza o desenvolvimento equitativo de uma cultura que se mantém presa a amarras estereotipadas. Para entender a raiz da causa é preciso ir à história do povo cigano: raptado do norte da Índia, por tropas islâmicas (cerca de 55 mil de uma só vez, com a queda da cidade sagrada de Kannauj) e dispersado como escravo, há mais de um milénio. A partir daí, fará todo um percurso de errância através dos séculos, sem território fixo, o que surtiu, nas populações residentes desses territórios, um sentimento xenofóbico de invasão estrangeira, fomentando uma rejeição sistemática a esse grupo étnico.

Desde a sua chegada ao continente europeu – nomeadamente a Portugal em meados do século XV – os ciganos foram sempre vistos como um alvo a abater, sendo aprovadas leis, em inúmeros países, com o objectivo de exterminá-los. Em finais do século XVI, ser cigano era punido com pena de morte. A sina deste povo, sempre foi o medo, pois para a sociedade maioritária eram como bichos, com perseguições, açoitamentos públicos, sedentarizações forçadas, institucionalização forçada de crianças, entre outras atrocidades.

Decorria o ano 1718, o Rei mandava enviar os ciganos para as colónias. Índia, Benguela (Angola), S. Tomé, Ilha do Príncipe e Cabo Verde, Brasil. Começara o degredo. Os ciganos, castigados nas galés portuguesas. As mulheres, separadas das suas famílias e enviadas também para as colónias. Os filhos destes eram dados a outras famílias a fim de serem afastados da sua cultura e serem ensinados a “ser portugueses”. Ano 1745, o Rei lança outro decreto para expulsar os ciganos do Reino. De entre tantos decretos, podemos também falar de uma lei em que os proibia de falarem a sua língua e usarem os seus trajes e geringonças.

Abarcando a mais antiga das minorias étnicas, como vemos nunca foi fácil para os ciganos viver no nosso País. Muitas tradições foram apagadas, porque o Estado obrigava-os a não viver de acordo com os seus costumes e certas leis étnicas. Só em 1822, lhes foi atribuída a cidadania portuguesa. Mesmo depois do 25 de abril, no final dos anos 90, uma autarquia decretou a sua expulsão do concelho. E estamos apenas a falar de racismo explícito e institucional. O outro, disseminado por toda a sociedade, dura quase intocado até hoje. É muito raro – por exemplo – que os próprios ciganos sejam chamados a um debate que lhes diga antes de todos respeito.

Publicidade

Pequenos furtos, negociatas de jumentos e outras cavalgaduras, a tradicional associação à cartomancia e leitura da sina, contribuíram para a difusão, na cultura popular, de uma imagem indissociável do cigano com criminalidade e que é utilizada, por muitos, para justificar a intolerância. Mas não pode ser desculpa: os judeus, um povo extremamente trabalhador e organizado, afastado da criminalidade, foi sempre tão ou maior alvo de intolerância e que se traduziu – através da história – em perseguição, discriminação e genocídio. Na maioria dos países, sempre quiseram aniquilá-los pelo dinheiro e poder. Como vemos não podemos ir apenas pela equação lógica da pobreza e da criminalidade para justificar o estigma em relação ao povo cigano.

Francisco Gomes da Silva, no seu Mysterios da Inquisição (1900), tem uma passagem curiosa a respeito dos ciganos: “Se não os deixavam trabalhar, como não queriam ser roubados? Se os enxotavam como faziam aos cães, como não queriam que elles mordessem? E elles viviam alli, nas trevas, amontoados, com frio e fome, se durante muito tempo não podiam agenciar a vida, as mulheres e os filhos! A moral christã prohibia o roubo, mas antes d’isso mandava dar de comer aos famintos e matar a sede aos sequiosos!”

Volvidos 120 anos, desde a publicação desta obra, a situação das comunidades ciganas pouco ou nada mudou. Incorrem, novamente, numa onda de extremismos, que promete, a troco de um punhado de votos, cortar-lhes as amarras que os prendem a territórios que são tão ou mais seus do que daqueles que os ostracizam. Sobreviveram mantendo uma cultura tribal própria, que os protegeu da perseguição e marginalização externas, sem isso não teriam chegado como ciganos ao século XXI. Uma cultura ritualizada que nada tem a ver com a europeia e com alguns costumes chocantes (defesa da honra: guerra mortal entre contrários, casamentos endogâmicos púberes com prova de virgindade, poder geronte paritário, encoberto e invisível para fora), costumes que variam de acordo com o clã de origem.

A democracia alimentou a ciganofobia, uma vez que nunca existiu qualquer plano de acção capaz para corrigir eficazmente o que 48 anos de fascismo agravaram. A pobreza extrema em que, não raras vezes, alguns agregados se encontram, chega a comportar uma barreira à sua sobrevivência biológica, quanto mais à sua integração. O curto alcance das iniciativas com vista à sua integração na sociedade portuguesa, levou a que tenham sido, sucessivamente, usados como arma de arremesso nos meandros políticos, sobretudo naqueles que empregam uma retórica marcadamente populista.

O rendimento social de inserção (RSI) é, frequentemente, uma prestação pecuniária que, mais do que a integração, visa garantir a sobrevivência de indivíduos reiteradamente flagelados por ciclos de pobreza inquebráveis. Apesar da retórica populista, os beneficiários ciganos dessa prestação social são uma curta minoria. Parece que os ciganos são os culpados de tudo porque alguns recebem RSI. Os alegados roubos de Luís Filipe Vieira, ou de Berardo, esses sim fazem importantes danos à nossa economia. E davam para pagar RSI, por centenas de anos, a todos os necessitados. Mas claro, o problema está nos ciganos.

Muitos de nós ficámos revoltados com ideias nacionalistas de muros fronteiriços com o México ou com campos de trabalho forçado e de reeducação das minorias islâmicas na China, mas são poucas as vozes críticas quanto ao tratamento desumano dado, não apenas, mas sobretudo, às comunidades ciganas em território nacional. Frequentemente, ouvi da boca de pessoas ditas progressistas as maiores barbaridades quanto a esta questão. O cigano é acusado de ser ladrão, vive da economia paralela, do tráfico de droga e armas, destrói a habitação social que lhe é atribuída pelas autarquias.

É necessário repudiar toda e qualquer narrativa que procure incutir um tom moralizador à pobreza, apontando dedos àqueles – em que se incluem muitos ciganos – que, ano após ano, década após década, têm suportado, estáticos, a inoperância de um Estado que, para camuflar a gestão danosa dos sucessivos governos, nunca se coibiu de a instrumentalizar. A pobreza. A integração como um instrumento para combater o anti-ciganismo revelou-se um erro, uma vez que esta tem sido a origem do mesmo e na medida em que todas as estratégias utilizadas para promovê-la foram implementadas esquecendo/apagando completamente as vozes ciganas.

Para combater a ciganofobia e a “condição pária” dos ciganos em Portugal, é fundamental ouvi-los e haver um porta-voz institucional junto do poder e da sociedade; a questão da habitação em moldes que não sejam as autarquias a assumi-la, pois já vimos que parece não ter dado bom resultado – criaram-se verdadeiros guetos – pelo que terão que haver políticas nacionais por oposição a concelhias ou regionais; dar um seguimento mais consistente à questão da educação e do trabalho; uma medida institucional de apoio ao comércio cigano, área onde sempre se mostraram capazes e interessados; a reserva de quotas de emprego na função pública para ciganos escolarizados; medidas de apoio à promoção da cultura do povo cigano e sua divulgação responsável, tirando do povo a ignomínia da xenofobia.

Nem a propósito, segundo um estudo “Os valores dos portugueses”, da Fundação Calouste Gulbenkian, divulgado no início do corrente mês, os ciganos estão praticamente a par com os alcoólicos e os toxicodependentes como os grupos de pessoas que os portugueses não gostariam de ter como vizinhos. Estes três grupos destacam-se dos restantes cinco grupos considerados. A distância social desejada pelos portugueses relativamente a ciganos, alcoólicos e toxicodependentes é cerca do triplo da registada em relação a judeus, muçulmanos e homossexuais. As pessoas racializadas e os trabalhadores imigrantes estão no fim da tabela, com 13% dos portugueses a não os desejarem.

Um dos responsáveis avança ao jornal Expresso uma explicação para a tão grande discrepância entre os ciganos e os outros grupos. “Os ciganos não têm qualquer norma que os proteja. O movimento anti-racismo não chegou aos ciganos, que continuam a não ser vistos como pessoas, antes como um grupo em que todos os indivíduos têm exactamente as mesmas características: são criminosos, arruaceiros e aldrabões”.

Sendo assim, estar perto de ciganos significa estar perto de “problemas, desacatos e violência”. Ao dizerem isto, os portugueses sentem que não estão a ser “racistas ou preconceituosos” nem estão a usar “estereótipos”, sentem que estão “a dizer a verdade” e aquilo que “as pessoas pensam”. E é disto que se alimentam os populistas: usam um discurso básico e socialmente difundido do ponto de vista propagandista para melhorar as performances eleitorais, ou seja, cativar eleitores apelando ao instinto mais irracional, esquecendo que somos todos seres humanos.

Aqui chegados e para terminar, cito o estudioso das comunidades ciganas portuguesas, recentemente falecido, José Gabriel Pereira Bastos: “Nós dizemos que eles são como nós precisamos que eles sejam para nos podermos ver como nos vemos”.

Marília Alves

Pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui