Em 2013 recebi um presente daqueles que gosto muito. O meu António, e o seu sentido de humor mordaz, considerou que em julho, quase a terminar, eu precisava de algo para ajudar a passar o tempo das minhas eternas férias. Naquela primeira página, a que os editores deixam em branco (acredito que é para o caso de nos apetecer deixar marca…) o meu António deixou a sua marca, como sempre fez em todos os livros que me deu.

Neste disse-me que: “Como não te tenho dado flores, recebe este livro para leres no prolongamento das tuas férias!” quase que se arrependeu… o livro é tão, mas tão bom, que mergulhei de cabeça e nem me lembrei mais de quem dependia dos meus dotes de bimby (um dia, quando alguém tentava desesperadamente vender-lhe o conceito, para o qual nem dinheiro tinha, o meu António disse que tinha uma bimby fantástica, eu…) Mas, como tudo o que é bom, o livro acabou rápido e as colheres de pau e os tachos voltaram a ser usados, os estômagos nem chegaram a dar pela minha ausência….

Este primeiro livro, que hoje vos deixo, abriu a minha época de verão em 2013, desde então abriu outras, tantas quantos os livros que se lhe seguiram e foram mais três. Quando leio sagas preciso de garantir a actualização e por isso releio sempre os volumes anteriores. Em que se resume isto? Durante quatro verões reli os livros anteriores para poder encaixar o novo. Gostei tanto que continuo a fazer o mesmo, mesmo sabendo que nenhum novo livro vai aparecer, leio apenas pelo prazer intenso que me garante Carlos Ruiz Zafón, ceifado por um cancro em junho de 2020.

O que mais aprecio em Zafón é o exagero. Tudo nele é exagerado! Fermin Romero de Torres é tão magro, mas tão magro, que visto de frente parece que está de lado e de lado é invisível!!! O exagero das suas figuras de estilo transporta-nos para a situação, ou para dentro da personagem. Fermin tem uma paixão por sugus, o rebuçado de sabor a fruta que só parece no mercado uns anos depois, mas que teve que ser, Fermin nunca seria Fermin sem sugus… Adoro as suas metáforas hiperbólicas, as suas comparações transbordantes, a sua trama apertada, o número de personagens absolutamente real, mas difícil de manter em cena. Só um mestre consegue criar e manter interessante tanta alma durante tantas páginas. Nem sei quantas são, sei que são quatro livros muito anafadinhos, este de hoje tem quinhentas e sete e os outros são iguais ou maiores…

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 Infelizmente Zafón não escreveu tanto como poderia, mas o que escreveu é divinal. Os seus enredos têm uma caracterização social perfeita, os factos históricos são cuidadosamente colocados e as nossas emoções são continuamente espicaçadas. A intriga e o ambiente de permanente mistério obrigam-nos a uma atenção redobrada. Algumas personagens são absolutamente tenebrosas, Javier Fumero, por exemplo, é uma personagem aterrorizadora outras, independentemente do que passaram, de quantas vezes comeram o pão que o diabo os obrigou a amassar, são doces ou hilariantes. Fermin é a minha personagem preferida, com ele rio até às lágrimas e choro até ao riso. A verborreia que o caracteriza, o desenrascanço, a educação, a inteligência, o sarcasmo, o sentido de humor refinadíssimo e as suas duas paixões garantem momentos sublimes em todos os livros da saga.

É por Fermin e pelos Livros, esquecidos ou perdidos ou até não escritos, que hoje da Serra saem palavras de Carlos Ruiz Zafón em A Sombra do Vento.

Carlos Ruiz Zafón

A Sombra do Vento

“Um segredo vale o que valem aqueles de quem temos de guardá-lo.”

“Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada volume que vês, tem alma. A
alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada
vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas
páginas, o seu espírito cresce e torna-se mais forte. Há já muitos anos, quando o meu pai
me trouxe pela primeira vez aqui, este lugar já era velho. Talvez tão velho como a
própria cidade. Ninguém sabe de ciência certa desde quando existe, ou quem o criou.
Dir-te-ei o que o meu pai me disse a mim. Quando uma biblioteca desaparece, quando
uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que
conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar,
os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para
sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na
loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada
livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós, Daniel.”

“Umas gotas salpicaram-me a ferida e vi estrelas na noite mais negra da minha vida.”

“- O senhor tem uma memória excelente.

– E você um sentido de oportunidade que mete nojo. Sabe que horas são?”

Sinopse

Na Barcelona de 1945, ainda a sangrar por causa da Guerra Civil, Daniel Sempere,
acorda um dia a gritar em desespero porque se esqueceu do rosto da sua mãe que a
cólera colheu tinha ele quatro anos. Para o compensar dessa dor tenebrosa o seu pai, o
senhor Sempere, leva-o a um local de que nunca poderá falar a ninguém, nem ao seu
melhor amigo, Tomás. Esse local é uma biblioteca labiríntica e secreta onde vão parar
todos os livros que já não têm lugar no mundo, seja por serem malditos, seja por terem
sido esquecidos, seja por serem perseguidos. Neste lugar encantado Daniel escolhe (ou é
escolhido…) o livro que lhe vai abrir o coração para todas as palavras do universo, A
Sombra do Vento de Julian Carax. O que vamos viver é um livro dentro de outro. Na
sua busca por mais deste autor, Daniel vai encontrar segredos tenebrosos de uma
Barcelona a sangrar, vai encontrar os fantasmas da guerra. Também encontra beleza e
harmonia, conhecimento e sabedoria, amor e paixão. Aos onze anos apaixona-se
perdidamente por Clara Barceló, a linda cega sobrinha do pedante e cultíssimo Gustavo
Barceló. Claro que esta paixão tem pernas demasiado curtas para andar mas vai
acalentar (demais !!!) as faces de Daniel. A relação de Daniel com os Barceló vai
envenenar a sua relação com o pai, talvez por serem dois pólos tão opostos num mesmo
lado… Os Barceló nadam em dinheiro, os Sempere contam os tostões na esperança de
não sobrar mês. Anos mais tarde Daniel descobre que A Sombra do Vento corre perigo
imediato e precisa de o pôr a salvo, no Cemitério dos Livros Esquecidos. É o único
lugar em que a mão assassina de Lain Coubert não conseguirá chegar… Aos dezasseis
anos, Daniel devolve o livro que o escolheu quando tinha dez. À volta deste livro serão
desfiadas as dores e alegrias de personagens suficientes para completarem uma vida.

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

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8 COMENTÁRIOS

  1. É muito reconfortante descobrir, escrito por outro(a), as mesmas sensações na leitura e descoberta de um autor que nos deixou extasiados e tristes por morte não anunciada mas que fica bem impressa nas nossas mentes e escolhas futuras!…
    Obrigado!

    • Quando soube da morte de Zafón fiquei primeiro incrédula e depois zangada. Zangada com um Universo cruel que nos priva de mentes brilhantes. Da minha parte, Luis, obrigada por esta sintonia.

  2. Estou a ler o labirinto dos espíritos da saga do cemitério dos livros esquecidos e estou a adorar claro. Quando leio os livros de Carlos Zafon sinto que estou dentro da estória.

  3. Excelente artigo, sou da mesma opinião, tem sido dos melhores livros que tenho lido nos últimos tempos.Fiquei a conhecer o seu trabalho numa leitura de grupo, sem saber nada acerca do tema do livro ou escritor, ao acabar de ler o primeiro livro fiquei fã e fui verificar o autor… Fiquei triste por saber que teria falecido o ano passado, foi sem dúvida uma grande perda para todos, o escritor merece artigos como este.

    • Ricardo obrigada pela sua simpatia em relação às minhas palavras. Em relação à obra de Zafón, encurtada pela fatalidade, o que ficou é muito bom, se gosta de literatura juvenil experimente. Recentemente saíram os últimos textos, edição póstuma, uns contos de que gostei muito…

  4. Eu já li a saga completa e foi dita melhores livros que li até hoje. Adorei e no final ficou a decepção e a tristeza de saber que um escritor destes não nos pode brindar com outros livros.

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