Não conheci Otelo Saraiva de Carvalho na Guiné, onde estive na guerra, em 1968-1969. Mas conheci ali outro militar influente na Revolução de Abril, o então major (por distinção) Carlos Fabião, que salvo erro estava ali na sua terceira comissão. E mantive uma relação de grande camaradagem e amizade. Com ele podia falar de colonialismo, anticolonialismo e descolonização e da guerra sem solução militar que era aquela da Guiné, mais uma feitoria do que uma colónia, e com ele visitei perigosamente as tabancas à volta de Mansoa, onde era recebido, em “chão balanta”, com alegria inesperada, porque procuravamos compreender os seus naturais. Talvez por isso se a guerra colonial começou em Angola, terminou (por assim dizer) na Guiné, onde foi proclamada unilateralmente pelo PAIGC a independência a 24 de Setembro 1973, em Madina de Boé, e onde terá começado a formar-se o “movimento dos capitães”. Tenho uma carta de Fabião de 23 de Abril de 1974 em que respondia, com entrelinhas, à minha estranheza de um militar da sua craveira ter sido colocado em Braga no Distrito de Recrutamento ou em qualquer outra unidade burocrática. Senti então que devia estar para próximo mais uma acção militar que se seguia à das Caldas, em 16 de Março.

Conheci sim Otelo em várias circunstâncias da minha vida académica, de apoio às escolas e de cidadão. Coorientei de longe o seu genro numa tese pouco conseguida sobre as relações entre o Estado Novo e o Fascismo italiano e com ele e com a sua filha Paula, que habitam próximo de Bolonha, mantenho um contacto regular. Mas, sobretudo, estive com Otelo em Coimbra com o recém-criado grupo de investigação do CEIS20 sobre “colonialismo, anticolonialismo e identidades nacionais” (de onde saíram teses de doutoramento que se devem destacar, entre elas a de Julião Soares Sousa, que escreveu o melhor estudo sobre Amílcar Cabral), e em duas sessões de debate a falar e a ouvir falar da guerra colonial e do colonialismo: em Oliveira do Hospital, a pedido de uma escola, e em Leiria, a convite da Juventude Socialista. Mas fui também encontrando-o por aí, nos circuitos das minhas viagens em Portugal, uma vez em Monsanto.

Escrevo, por isso, como cidadão e não como historiador. Devo-lhe, como todos os portugueses que amam a democracia, o plano do 25 de Abril e isso seria suficiente para eu lhe prestar uma homenagem singela. Quanto à sua acção em quadrantes extremistas, devo dizer, como alguém que nunca esteve desse lado, que prefiro não ignorar esse facto, mas tentar entender o sentimento de Otelo. Era, como Fabião, com as devidas distâncias, um sentimental (“caloroso” – assim lhe chamou um jornalista no dia da sua morte). Por isso, se cheguei a escrever ao meu amigo da Guiné e antigo chefe de operações do Comando de Agrupamento 2952, de que eu era oficial de Transmissões, a tentar evitar que caísse na tentação extremista, não pude obviamente fazê-lo com Otelo, que não conhecia em termos pessoais. Todavia, entendi, sobretudo depois de o conhecer pessoalmente, por que razão o estratega de Abril nunca poderia permanecer, depois do golpe democrático e alegadamente socialista, apenas a gozar os louros da sua acção. Teria de ser actor pelo lado “popular” no teatro da vida e da política, como parece que queria ter sido no teatro de cena, aspirando a interpretar o caixeiro-viajante na peça de Arthur Miller, que curiosamente esteve em cena, com Rogério Paulo no papel de Willy Lomman, a que tive ocasião de assistir. Entendi e entendo hoje ainda melhor, depois de ver este país e o mundo sempre a resvalar para um neoliberalismo individualista sem rosto humano, afastando-se da social-democracia ou do socialismo democrático que disse querer alcançar, como consta da inicial Constituição de 1976.

Claro que nada justifica a sua colaboração com um movimento de esquerda revolucionária e violenta, se na verdade nele participou, mas devemos pensar — como de resto tem sido dito por muitos — que o que fica da obra de Otelo é a sua participação no 25 de Abril, pois será sempre responsável pela liberdade para pensar e dizer o que pensamos, que hoje felizmente ainda sentimos, afastados dos jogos de poder e das clientelas políticas que por aí se foram instalando, umas vencedoras, outras por agora subalternaizadas e outras que se vão aproximando perigosamente da luta pelo poder. A História, que considero como uma ciência de objectividade, já vai apresentando e apresentará, cada vez melhor, as diversas interpretações do que se passou. De Otelo dirá sempre — com mais ou menos documentos justificativos — que se tratou de uma figura controversa, como foram tantos outros de todas as revoluções. Poderá descobrir um dia — e isso seria considerado mais um erro judicial (como tantos outros) — que afinal não fez parte activa das FP-25 e, por isso, não se lhe pode atribuir a violência que muitos encontraram na sua personalidade e na sua acção, ou, ao contrário, confirmará a versão oficial, mas ninguém pode desmentir que se tratou de um revolucionário que cavalgou, ingenuamente e contra-corrente, nas ondas de um marxismo militante. Isso é de uma grande evidência e não é preciso ser historiador, politólogo, jornalista de investigação ou especialista em qualquer ciência social para dizer o que nunca escondeu, como não o fez de aspectos da sua vida privada.

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Fica, pois, este testemunho de quem o ouviu e com quem participou em debates de esclarecimento de jovens estudantes ou militantes. Afinal a História é feita também com base nestas fontes. O 25 de Abril aconteceu e isso deve-se fundamentalmente a Otelo Saraiva de Carvalho. Já próximos dos 50 anos da Revolução, devemos lembrar sobretudo este feito de um militar que afinal lutou por ideais, o que hoje é quase estranho no mundo da política e, em certos casos, até da ciência ou do que se diz ser a ciência.

Luís Reis Torgal

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