O Emir do Qatar, quando no Ocidente, surge vestido de Armani e civilizado nos gestos e modos. Possui um vasto património imobiliário em Inglaterra e é recebido pelas mais altas autoridades daquele País. Interessado e ligado ao desporto, é também dono do Paris Saint-Germain, um império do futebol. Tudo muito ocidentalizado. Quando regressa ao Qatar, põe o turbante e adapta a postura aos costumes que impõe aos seus súbitos. E nós ocidentais tão sofisticados somos, que se nos aparecer um maltrapilho rejeitamos, mas ganha um estatuto de credibilidade se a aparência for de griffe e patrocinada pelo petróleo. E petróleo é o que não falta no Qatar. Ora, nesse País imperam os mesmos bárbaros costumes relativamente às mulheres que os Talibãs vão impor no Afeganistão. E os governantes, tão ricos e bem aceites pelo Ocidente, tudo fazem para mantê-los. No Qatar, como noutros países islâmicos que vivem da exploração do petróleo, há riqueza, mas não há liberdade, as mulheres vivem completamente reféns dos seus ‘donos’, ainda que com ar condicionado e carros de alta cilindrada que as mesmas não conduzem, porque não lhes é permitido tirar a carta de condução.

O ideólogo politico dos Talibãs estava no Qatar, onde vivia um exílio dourado totalmente apoiado pelo Estado. Voltou para o Afeganistão em agosto, dois dias após a tomada do poder da capital do Afeganistão, o que significa que já estava a comandar politicamente as operações, sendo, neste momento, o chefe supremo daquele grupo fundamentalista islâmico. Quando um país muda de dono, os seres humanos enfrentam um lado miserabilista da sua condição. E quando o novo dono é Talibã é a barbárie. Inundam os meios de comunicação social imagens de afegãos a invadirem aviões no aeroporto de Cabul, na tentativa de fugirem a um futuro sombrio, em que a morte está sempre à espreita. Imagens de mães que lançam os filhos por cima do arame farpado. Haverá acto de maior desespero do que esse? Como foi possível? O acordo efectuado pelos EUA com os Talibãs deu-lhes legitimidade para avançarem e, em menos de um mês, sem nenhuma oposição, chegarem a Cabul. Um exército regular entregou-lhe as armas e pôs-se a andar. E falam em ‘transição pacífica’ para um governo de Talibãs, como se houvesse algum governo Talibã pacífico.  Raiva, revolta, impotência, é o que sentimos. 

O que podemos fazer pelas meninas/mulheres afegãs, pois vão ser elas a sofrer até ao tutano aquela realidade cruel? Meninas e mulheres que conquistaram liberdades durante os 20 anos de ocupação dos EUA, e estão desesperadas porque lhes retiraram o tapete, que é como quem diz a possibilidade de ter uma vida minimamente normal. Agora que o grupo militante islâmico voltou ao poder, terão de voltar a vestir-se de burca, não poderão trabalhar, dependerão para tudo dos homens, seus pais e maridos, seus tutores e seus donos.  Segundo a comunicação social, combatentes dos Talibãs andam já de porta em porta e obrigam meninas de 12 anos a casarem-se com eles, enquanto comandantes jihadistas ordenam que se criem ‘listas de casamento’ e que as famílias entreguem meninas para servidão sexual.

A mensagem, por mais subtil que seja, é clara: os direitos das mulheres mantêm-se, mas dentro do ‘quadro da lei islâmica e do respeito dos valores tradicionais afegãos’. O que isto quer dizer, na prática, é que as regras religiosas ortodoxas passarão a ser as leis do Estado, ou seja, a Sharia. E os actos falam por si e lembram-nos o passado recente do País às mãos dos extremistas, com deturpação da religião como justificação para políticas de terror e de repressão. Regressará a total invisibilidade feminina. As mulheres, aquelas que sobreviverem, perderão a voz, a liberdade, a dignidade. Deixarão de ser pessoas, cidadãs, para serem coisas, com o seu destino deixado à mercê dos homens. Até o riso perderão, os Talibãs nunca gostaram da alegria e do humor.

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Facilmente apelidamos os Talibãs de bárbaros, com o aspecto físico rude e as roupagens sujas e desalinhadas. Contudo, se os compararmos com o Emir do Qatar, com o Príncipe da Arabia Saudita ou com os demais dirigentes dos países islâmicos, são em tudo iguais, apenas a vestimenta é mais cara e as torneiras são de ouro. Os primeiros são apelidados de bárbaros, os outros de senhores. Quem paga a capacidade bélica dos Talibãs são esses senhores com ligações e interesses no Ocidente e que frequentam os maiores salões europeus.  Os EUA e todos os países – nomeadamente da Europa –  que participaram na coligação para invadir o Afeganistão, mostram-se agora muito chocados com a conduta dos Talibãs, mas não se mostram chocados com os outros países islâmicos mais ricos, onde as mulheres são tratadas da mesma forma, só que enquadradas de forma mais sofisticada para não dar tanto nas vistas. Mas o cerne é igual. Hipocrisia? Sim sem duvida, sempre foi assim. 

É o domínio da Realpolitik e é transversal a todos os países. Ou seja, os ocidentais não levantam problemas aos países islâmicos quando os interesses são utilizados para fazer bons negócios. E quem tudo perde com isto são sempre os do costume. Esses interesses legitimam quem abandonou as meninas e mulheres afegãs à sua sorte e ‘têm ainda a lata’ de apelar à nossa comoção. E em nome desses mesmos interesses nunca terão a coerência de propor a invasão do Qatar ou da Arábia Saudita para proteger os direitos humanos. Sim, é verdade que o Ocidente não invade todos os países que violam direitos humanos, nem derruba todos os seus líderes e converte-os à ‘ideologia dos direitos humanos’. E, pior, até convive e relaciona-se com regimes deploráveis. 

Ora, se não se combate quem pode beneficiar com esses negócios de milhões, nunca se muda nada, alimentam-se regimes que perseguem e utilizam mulheres em nome da Sharia, mandam matar e retalhar às postas quem entendem e nada lhes acontece. E não é de hoje. Tal como a Inquisição não existiu apenas para queimar bruxas. Era uma forma de eliminar opositores de uma forma legitimada. A Sharia é altamente útil do ponto de vista do domínio total, flexibilizando a sua interpretação quando lhes traz benefícios económicos ou quando lhes dá jeito. Um exemplo, o Estado Islâmico não permite o consumo de drogas, mas como o Corão não menciona drogas químicas, forneciam-nas legitimamente aos soldados. E tornou-se o maior produtor de drogas químicas do mundo, sem esquecer que os Talibãs também são financiados pelo ópio.

Os carros que os Taliban conduzem são americanos. A ONU é praticamente os EUA. Se Biden respeitou o acordo para retirar as tropas do Afeganistão, não será a ONU a conseguir qualquer intervenção. Aliás, os EUA criaram as milícias de onde saíram os Talibãs e Bin Laden, formaram-nos e treinaram-nos para combater os soviéticos, quando estes invadiram o Afeganistão em 1979. A história prova-nos que depressa o feitiço volta-se contra o feiticeiro. Após o atentado de 11 de setembro de 2001, foram os norte-americanos a invadir o Afeganistão para derrubar os Talibãs.  Hoje saem com imagens que em tudo lembram a retirada de Saigão na década de 70, entregando o País ao governo dos Talibãs, que vão ter apoio declarado da Rússia e da China. Estes dois países buscam beneficiar política e economicamente da tragédia humana vivida pelos afegãos, verificando-se que, sendo membros efectivos do conselho de segurança da ONU, se qualquer um deles vetar não há resolução que seja executada. Está tudo dito.

Marília Alves

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