Hoje da Serra correm palavras de Valter Hugo Mãe. Mãe não é uma estreia por aqui, é um dos meus autores favoritos que vou poder continuar a ler, por isso… 

Um dia, numa das consultas de neurocirurgia do meu marido, conversávamos sobre literatura.  O médico que nos acompanhou nessa estrada partilhava da nossa paixão por livros e descreveu Mãe como “O gajo que vai viver uns tempos para um sítio e escreve como se lá tivesse vivido a vida inteira.”, na altura falávamos de Homens Incrivelmente Poéticos, que se passa no Japão. Claro que a outra parte de mim logo tratou de me por o livro nas mãos, porque queria saber se partilhava da opinião do Professor L.  e efectivamente assim é. Senti isso em Homens Incrivelmente Poéticos de que um dia vos falarei e voltei a senti-lo em A Desumanização que hoje vos deixo. Terminei a leitura deste livro em dezembro de 2020, sinopsei, como faço habitualmente, mas nessa altura a outra parte da minha alma (e do meu cérebro) estava demasiado cansada para poder conversar sobre o texto de forma que aguardei por dias mais prazerosos que infelizmente não vieram. Esta semana, porque o que trago em mãos é chato como a sardinha magra, pensava em que livro queria deixar e lembrei-me … fui ao caos que a ausência deixou na minha antes tão organizada minibiblioteca e lá estava A Desumanização a espreitar debaixo de uma pilha anárquica…

A desumanização

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Valter Hugo Mãe

“A casa dos meus pais estava diferente. Arrumada de alguns empecilhos, que também eram recordações e pessoalidades sobradas ali dos meus tempos, dos tempos de Sigridur. A casa estava limpa de nós.”

“A matrona negociava, ela sim, o papel das mulheres. Replicava muito por despeito, vitimando o homem, supondo que a falta de pénis inspirava o intelecto.”

“O meu pai, de nervoso passara a contido, um bicho circunscrito, como uma raposa que se domesticasse, procurando esquecer a sua própria natureza.”

“Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos. As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem sentir, se falar. Não sabiam sequer o sabor das batatas. Só os livros explicavam tudo. As pessoas que não lêem apagam-se do mapa de deus.”

Sinopse

O cenário físico é agreste, muito agreste. Os fiordes da Islândia. A neve que impede as saídas de casa, o vento cortante, as escarpas assustadoras, as poças de água quente, o mar límpido onde peixes se matam uns aos outros. A paisagem descrita é de uma beleza despida de tudo o que é supérfluo. Apenas a força dos elementos telúricos ainda num estado quase embrionário, se pensarmos no tempo geológico, e dos elementos atmosféricos. Pela força da palavra também nós caminhamos à beira dos incríveis precipícios, sentimos o bafo que sai da boca de deus com o seu cheiro a enxofre, adoramos a beleza sublime e assustadora das auroras que até as ondas do mar revolto conseguem cavalgar. Tudo naquele lugar é visto pelos olhos da tristeza e mesmo assim a beleza consegue espreitar por aqui e por ali. A paisagem humana é ainda mais árida do que a física. A solidão parece servir de isolante contra o frio. O tricot, que ocupa um tempo largo nos eternos invernos, tece uma teia de ligações entre todos. Toda a gente tricota! As ovelhas assustadiças, que se suicidam quando se perdem, dão uma nota de cor sonora a uma paisagem que pode ser deprimente. As gentes são encobridoras de segredo escabrosos e obscenos, mas apenas para o exterior.

A história é narrada por Hallala, a menos morta. A sua irmã gémea, Sigridur, a outra metade de si, morre e vai ser plantada. Depois disso só a tristeza conta. O vazio deixado pela morte é infinito, isto porque a morte é um exagero,” leva demasiado. Deixa muito pouco”. A morte da irmã deixou-a pela metade e à sua mãe em nada. Nada sobra de sua mãe que para superar a dor da cabeça se inflige cortes profundos, sangra-se como quem toma um ben-u-ron. No pai a morte demasiada de Sigridur deixa a poesia encarcerada entre os arcos das suas costelas que a custo vai saindo porque a morte, sendo coisa de deus pode muito bem ser bela. Para as “nossas gentes” ambas as crianças morreram, uma está menos morta do que a outra. Uma foi plantada a outra ainda não. Einar, o tolo, o feio ogre de dentes podres e boca negra persegue as gémeas sendo escorraçado por Sigridur. Hallala não o sente assim tão repulsivo, e contra as instruções da irmã, que do alto dos seus 11 anos esperava uma legião de príncipes a caminho da Islândia para disputarem a sua pessoa, vai apaixonar-se por ele depois que a irmã foi plantada. Deste amor clandestino acontece uma gravidez que culmina em aborto espontâneo. O filho morto acaba de vez com a mãe, que esperava a recuperação da sua menina, a mais morta. O pai perde a poesia, e uma tia fugida sabe deus de quê, regressa e ocupa todo o espaço do mundo e ainda dos arredores. 

A escrita de Mãe enrola-se na nossa mente e ao fim de pouca páginas lá vamos nós. Passamos a ser. A paisagem humana, ou a desumanização não da paisagem…

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

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