Depois da modorra do verão a vida tem que voltar ao ritmo frenético. Verão, mesmo que sem férias, significa um pouco mais de lazer, mais rua, mais amigos, mais tremoços e acompanhante, mais preguiça… A entrada neste tempo de calores é feita lentamente, à medida que os dias se alongam, que o termómetro dá ordem aos agasalhos para se retirarem lá mais para o fundo dos armários, que as calças encolhem até serem calções, que as mangas minguam e os decotes crescem, que as botas dão lugar às sandálias. Quer-se que a saída também seja calma e tranquila. Lentamente vamos ficando mais por casa, os tremoços dão lugar ao queijo e ao respectivo acompanhante e um dia lá vamos procurar a mantinha… estes últimos dias de verão permitem-nos já entrar em modo trabalho, mas com calma… pelo menos era isto que eu gostaria que fosse a minha vidinha… e não um frenesim sem preparação prévia, sem aviso. Com estas coisas em mente lembrei-me de um livro lindo (melhor, maravilhoso!!!), com ilustrações de João Nasi Pereira e palavras de Mia Couto. São dele as palavras que correm Serra abaixo.

Mia Couto, é um moçambicano nascido em 1955, que se dedica às letras tendo uma obra literária vastíssima. Hoje deixo Mar Me Quer, esperando que a sua ternura nos ajude a entrar no ritmo mais acelerado que se avizinha. 

Mia Couto

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Mar Me Quer

“Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção de alma que nem chegou a falecer.”

“Enquanto falava já minha mão viajava naquelas gorduras vivas dela, comboizinho doido ondulando pelas topografias do seu assento. Eu andava de bicos de mãos pelas reentrâncias dela.”

SINOPSE

Mia Couto conduz-nos por locais, sentimentos, climas, cheiros e emoções fortes. Pela sua pena ficamos a conhecer um pouco do que foi e é a identidade africana. Cria em nós a sensação de uma paz penosa, deixa-nos entrever uma alma pisoteada e amachucada que não tem força nem vontade de se rebelar, sem, contudo, perder as suas características.  

A sua capacidade para inventar palavras é surpreendente. Cada nova palavra tem um significado num contexto muito específico, criando uma cumplicidade entre leitor e narrador que nos obriga a mergulhar nos sentimentos das personagens, a pensar e viver como elas, ainda que de forma momentânea. 

Nesta obra vamos conhecer duas personagens, vizinhos, “Nunca ninguém foi tão vizinho.”, que têm histórias paralelas, as suas infâncias foram demasiado marcantes, deixando as respectivas sequelas. Ambos têm uma necessidade atroz de calor humano, de contacto. Mas ambos têm imensa dificuldade em dar e receber. Acabam por ser o apoio um do outro, ajudando a dar continuidade ao tempo do outro. No fundo são complementares embora a Vizinha nunca ceda aos apetites do Vizinho, mantendo-o num mundo de sonho e felicidade irreal. Na vida de ambos o Mar ocupa o lugar central.

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

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