No momento mais sensível para a nossa vida como sociedade, escrevo-vos sobre a importância do contraditório na vida democrática, especialmente no governo local, pela proximidade que são estas eleições para cada um dos cidadãos.

É a altura de reflexão sobre o trabalho que foi feito nos últimos quatro, oito ou doze anos, por uma equipa que está nos destinos e lides de uma população. Se importante é quem está no governo, mais importante é a oposição. A oposição é o maior reflexo de um regime democrático: é o bloco não institucional que vigia quem exerce o poder, a forma como a exerce e até onde a exerce. A oposição num regime democrático, e em democracias saudáveis, é o pêndulo que equilibra aquilo que é o poder público, exercido por quem é eleito pelo Estado, e este no seu sentido mais puro, o guia moral da sociedade.

Os problemas de uma oposição em um regime democrático são vários, muitas vezes perigosos e perniciosos. A pressão de uma maioria sobre uma minoria, a imposição de valores socialmente aceites, e em casos extremos, a tentativa do seu silenciamento através de instituições, associações, públicas ou privadas. No conflito de argumentos, o perigo do que é o argumento racional, factual tem sempre o seu contraponto no emocional e falacioso, demagogo.

Sobre a demagogia é a arte utilizada por alguns por fim de impor o interesse de alguns a muitos, através de falsos argumentos, promessas ou outro qualquer interesse velado, ao ponto dos visados tomarem esse interesse como se fosse o deles. A demagogia anda muitas vezes de mão dada com o populismo, e este é o exercício abusivo de quem está no poder na criação de tudo aquilo que está ao seu alcance para entreter populações, ou satisfazer certos grupos próximos do poder, ou estratégico para estes, só e pelo fim último da manutenção do poder, da popularidade, do poder pelo poder. Dos casos mais gritantes de demagogia e falsos argumentos, ou argumentos factuais versus argumentos emocionais, são os casos de vitimização. A vitimização é o refúgio político de quem já não tem mais argumentos a utilizar contra factos, ou raciocínio. A vitimização é a obra pela obra, a festa pela festa, o ao menos fizemos e se alguém diz algo contra, é a “política pela negativa”, o “bota-abaixo”. A vitimização é dura porque demonstra normalmente a negação perante os factos, a inadmissibilidade de negligência, incompetência, teimosia. A demagogia populista é extrema, perigosa, manipuladora, podendo levar a ameaças veladas a cada um dos membros da sociedade e à repressão da oposição democrática. O silenciamento da oposição tem como consequência a opacidade de políticas por quem
governa, à falta de exigência, à oposição de vontades e à corrupção. Numa sociedade destas afastamse os jovens, diminui-se o investimento, cria-se o clima de medo e de perseguição. Na sociedade os competentes desinteressam-se pelo que é a vida pública, os jovens procuram novas oportunidades, as localidades marasmam-se e, por fim, findam-se. A corrupção leva à tirania, e o ciclo vicioso interrompe-se pelo dever de oposição de focos mais radicais e extremos sobre o que está mal, muitas vezes mais perigosos do que aqueles que naquele momento detêm o poder. Uma oposição saudável é aquela que tem o direito de se exprimir, numa sociedade em que a Lei é cumprida, e de quem exerce o poder político tem a capacidade factual de a ouvir e de a não reprimir.

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A oposição é o maior vigia não instituído numa sociedade democrática, o qual exerce o princípio da liberdade para se exprimir para o bem da sociedade, como ao direito de serem refutados e combatidos com factos, por boa fé.

O tempo de sufrágio que vivemos, em que muitos dos que se propões à eleição são próximos, tenhamos em conta os seus programas e as suas ideias. Sobre aqueles que são governo, reflita-se em todos os seus actos como executivo, mas também como pessoas na sociedade, e avaliem a retidão moral e competência para continuarem a serem guias dos destinos do seu povo.

A política deveria ser o ato mais nobre daquele que se propõe a fazê-lo, pois aquele que o faz expõese e sujeita-se ao escrutínio de toda uma população. Mantendo este princípio, que se vote em consciência, sobre os factos pertinentes e aquilo que verdadeiramente são as necessidades de todos.

Para aqueles que têm a Coragem de se apresentar à sua terra,
Para a minha esposa

Armando Mateus

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