As eleições autárquicas são a verdadeira festa da democracia em Portugal. Estima-se que mais de meio milhão de portugueses estejam envolvidos nestas eleições autárquicas! É de facto um grande momento de participação cívica e é também quando muitos jovens são introduzidos pela primeira vez na política, o que é de louvar. Havendo bons exemplos a seguir e oportunidades, estes jovens poderão tornar-se futuros autarcas e líderes associativos mais bem preparados e que criarão melhores condições de vida para as comunidades.

Ainda que existam, localmente, bons autarcas e associativistas que possam servir de exemplo, a verdade é que o nível político geral não é particularmente elevado. Houve muita ação de campanha, mas pouco “sumo”, essencialmente devido a dois fatores: a revelação tardia dos programas eleitorais e a falta de diferenciação entre candidaturas.

Existem dois elementos essenciais a uma candidatura autárquica: as pessoas que a integram e o programa eleitoral. É importante que uma proposta de programa eleitoral seja publicada numa fase inicial da campanha, caso contrário, as pessoas não sabem no que vão votar, não podem questionar os candidatos sobre como é que se propõem a levar a cabo as suas propostas e não há debate possível entre candidaturas, porque não há ideias em cima da mesa. Transforma-se o voto numa profissão de fé.

Por outro lado, é importante que existam diferenças ideológicas entre os partidos, sob pena de falarem todos do mesmo e fazerem propostas no mesmo sentido, o que resulta em menor participação cívica.

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Ora, o que aconteceu foi exatamente o contrário disso. Os programas eleitorais completos (aqueles que existem…) foram divulgados tarde e quase não foram sujeitos a escrutínio popular. De todas as forças políticas, a única que divulgou o seu programa completo nas redes sociais foi o PSD. De resto, as bandeiras são praticamente transversais a todos os candidatos: concretizar a saída da APIN, aposta reforçada no turismo e sector florestal, chamar mais empresas para as nossas zonas industriais… Isto foi particularmente visível no debate de dia 20, na Mundial FM: toda a gente reconhece a importância destes sectores, e tirando uma ou outra medida avulsa, toda a gente propõe mais ou menos a mesma coisa. Sem divergências ideológicas, sobra atacar a competência e o carácter do adversário…

Idealmente, queria ter visto uma CDU comprometida com a melhoria das condições laborais dos trabalhadores – públicos e privados – do concelho, propondo um objetivo claro até ao fim do mandato. Seria um objetivo digno e condizente com a ambição de eleger um vereador. Esperava que PS e PSD tivessem programas relativamente semelhantes, mas com grandes apostas em sectores diferentes: o PS com um programa de arrendamento social ambicioso, apostado em fixar a população, atrair pessoas dos concelhos vizinhos e aumentar o rendimento disponível das famílias, descendo drasticamente o valor gasto em habitação. Já o PSD poderia focar-se na atratividade do concelho para as empresas defendendo como prioridade a instalação de uma rede de fibra ótica de última geração, assegurando a cobertura total do concelho, uma medida que também agradaria ao CDS. Ambos programas que se enquadrariam na matriz ideológica dos partidos, fariam o concelho avançar em múltiplos indicadores e que são possíveis devido aos fundos europeus.

Programas construídos em torno de uma única medida de grande impacto, com um plano detalhado, sólido, sujeito a escrutínio da população e que a futura oposição possa cobrar. É assim que se consegue maior participação cívica e que a sociedade avança. É assim que se faz boa política.

Infelizmente, não foi isso que aconteceu e agora podemos apenas esperar que o vencedor do próximo domingo tenha a habilidade para elevar o concelho.

O meu prognóstico?

Pedro Coimbra é relativamente popular e reconhecido e manteve Humberto Oliveira como figura durante a campanha, que é ainda mais popular e recolhe maior afeto da população. Na minha perspetiva, a campanha do PS foi mais visível, conta com pessoas mais envolvidas com a população a nível geral e também considero que Pedro Coimbra saiu vencedor do debate, até porque foi o único candidato que tinha uma estratégia clara: desestabilizar o seu adversário direto.

Álvaro Coimbra é um excelente comunicador. Tem experiência associativa, mas não é político nem autarca e no debate não soube reagir ao ataque cerrado do seu oponente. Além disso, o PSD – que tem uma equipa recheada de bons valores e que aproveita melhor os seus jovens – volta a apresentar um candidato independente, algo que eu considero que a população não vê com bons olhos: se é para é para ser candidato de um partido, pois que o seja abertamente, não atrás de uma suposta “independência”. Não é um bom princípio.

Considero também que os fatores que podem fazer pender a balança favorecem o PS. Estão bem posicionados, as propostas da oposição não oferecem nenhuma novidade de vulto em relação às suas e têm a experiência e a capacidade mobilizadora do seu lado.

Se tivesse de apostar: PS vencedor com quatro vereadores eleitos, PSD elege três.

Independentemente do calculismo eleitoralista, domingo lá estarei, em Gondelim, a votar de acordo com a minha consciência e as minhas convicções. Espero que sigam o meu exemplo e que votem de acordo com as vossas!

Rui Sancho

 

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