Ainda não comi castanhas este ano

Não as apanhei (à venda) com aquele aspecto que cumpra os mínimos exigíveis. Vi umas muito enfezadas (escanifradas, se preferirem) à entrada de um supermercado mas, infelizmente, nem foi preciso remexer ou pegar numa para perceber que, sendo castanhas, sim senhor, eram de uma colheita mais antiga. Com sorte, do ano passado. E se eu sou esquisito com castanhas… Com castanhas e camisas. É peça de roupa que não me podem oferecer, por exemplo. Caso contrário, lá ficará encostada, coitada. Para sempre ou durante aquele tempo necessário até poder oferecê-la a alguém, sem grandes constrangimentos. Tenho padrões de que não abdico (até nas camisas) e isso leva a uma criteriosa e aturada seleção. A vantagem disso é raramente me cruzar com camisas vestidas como as minhas. E se tenho orgulho nisso! Uma fraqueza, se quiserem. Voltando às castanhas, gosto tanto, que começo a sonhar com elas (literalmente) a partir do dia 22 ou 23 de setembro, até ao dia em que, finalmente, lhes consigo pôr o dente pela primeira vez. É fazer as contas. Só este ano já terei delirado durante o sono (com elas) quase vinte vezes! Um tormento! Uma provação! Provar é que nada! Ontem sonhei que estava a descascá-las (cruas) com os dentes. Eram ferreirinhas, uma variedade de Lamego, que aprendi a apreciar quando por lá trabalhei já faz uns bons vinte e cinco anos. Certo é que acordei com a boca toda grossa e com a língua encortiçada. As ferreirinhas são boas mas (muito) difíceis de descascar. Sobretudo quando são novas. Nem mesmo com ajuda da melhor navalha conseguimos limpá-la sem ter de parti-la em mil e um pedaços. Uma trabalheira. O melhor mesmo é golpear e meter a cozer ou a assar. Problema resolvido. Abrem-se todinhas e ficam lindas. Um regalo para (todos) os sentidos. É tão bom comer castanhas! Eu é que, este ano, ainda nada, repito. Mas sei que chegará a minha vez.

José António Duarte

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