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Marília Alves

Democracia em perigo – André Carrilho

O crime estúpido, o criminoso só
Substantivo, comum
O fruto espúrio reluz
À subsombra desumana dos linchadores

A mais triste nação
Na época mais podre
Compõe-se de possíveis
Grupos de linchadores

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(O Cu Do Mundo Canção de Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil)

No Brasil, dia 8 de janeiro de 2023, hordas de pessoas deslocaram-se de autocarro a Brasília e invadiram as sedes dos poderes executivo, judicial e parlamentar. Vandalizaram e pilharam os prédios dos três poderes, destruindo mobiliário e parte de um rico acervo de obras de arte guardado nesses edifícios, representativo da história brasileira. Obras de arte únicas parcial ou completamente destruídas, como o quadro conhecido pelo nome “Mulheres na Varanda” de 1962, de Di Cavalcanti, que foi perfurado em diversos pontos. A escultura “A Justiça”, em frente ao palácio do Supremo Tribunal, foi vandalizada com a frase “Perdeu, Mané”… Dois exemplos, entre muitas obras de imensurável valor, vandalizadas com a intenção pura e simples da destruição. Estes ataques bárbaros demostram o fanatismo e a ignorância/obscurantismo destas pessoas que agem em manada, algumas das quais defecaram no interior dos edifícios e em cima de mobiliário, o que reforça a falta de civilidade e a barbárie.

Trata-se de um movimento de apoiantes do ex-presidente Jair Bolsonoro que parte de uma argumentação de fraude eleitoral falsa, unindo-se numa manifestação em que pedem uma intervenção militar para derrubar Lula da Silva, ou seja, com o claro objetivo de provocar o caos e derrubar o Estado Democrático de Direito. As mordomias e muitos bens materiais incluindo financeiros, oferecidos por Bolsonaro às forças armadas, terão contaminado alguns sectores, que foram coniventes. E tudo isto aconteceu dois anos depois do assalto ao Capitólio em Washington por apoiantes de Trump, que não aceitavam a derrota do seu líder. Os apoiantes de Bolsonaro mimetizaram os de Trump, levando a cabo um ataque que não foi gerado espontaneamente pelo povo, mas pelo financiamento de parte da elite, “brasileiros de bem”, para os quais a lei não conta, o que conta é garantir que tudo ficará como está ou que regredirá.

A organização do acto terrorista brasileiro ocorreu em convocações nas redes sociais e aplicativos de mensagens, durante semanas e tudo indica que foi possível com o patrocínio de quem ficou a perder com a vitória de Lula. A forma como filmaram tudo demonstra o sentimento de arrogante impunidade. O próprio Bolsonaro claramente não aceitou as regras do jogo e a prova disso foi a fuga para Miami, de forma a não fazer parte da passagem de poder e arranjar um álibi para fugir às responsabilidades. A comunicação social deu, inclusive, conta de um projecto de decreto que encenava um golpe de Estado, elaborado por um ex-ministro, que não tomou as medidas de segurança mínimas e até escancarou as portas. O mais impressionante, também comum aos EUA, consiste nestas acções serem dirigidas a partir de fora e levadas a cabo, no terreno, por pessoas ignorantes, muitas vezes com perfil criminoso, que gritavam “o Brasil é nosso”, vestiam a camisola da seleção nacional e empunhavam a bandeira do Brasil. Existe um quadro político que associa ambos os episódios à voga do populismo antidemocrático, à manipulação da informação, a teorias da conspiração e a um saudosismo por exemplos passados do extremismo de direita.

A disseminação do populismo, um pouco por todo o mundo civilizado, da violência e do ódio como forma de fazer política, é hoje inegável. Nos últimos anos, abriu-se uma caixa de Pandora que será difícil de fechar. Outro facto, é que tanto relativamente a Trump como Bolsonaro, as pessoas identificam-se com uma ou mais características que estes homens exibem despudoradamente. Seja o racismo, a pouca simpatia pela democracia, o favorecimento dos amigos e acólitos em geral, do lobby das armas, o machismo exacerbado, o racismo, os repetidos ataques à emergência climática e às políticas contra os combustíveis fósseis. É interessante perceber, também, como todos estes políticos de extrema-direita têm algo em comum: apresentam-se como alternativas que chegam para lutar contra o sistema e os poderes instalados, mas, assim que o sistema diz que já não os quer, fazem o que podem para subverter os princípios básicos da democracia e manterem-se no poder. É o que vemos, mais ou menos, com alguma regularidade, nas eleições no continente africano: mal o candidato derrotado não aceita os resultados, começam os tumultos e, quantas vezes, uma guerra.

Mateus Mendes, um jovem professor brasileiro, fala de neogolpismo e guerra híbrida, conhecida por promover as chamadas “revoluções coloridas”, nas quais a burguesia articula, no lugar da força militar, o sistema de justiça, o parlamento e a comunicação social para derrubar governos populares, manipulando inclusive manifestações de rua. O “neogolpe” no Brasil será parte da estratégia de guerra híbrida, implantada desde o início contra o governo de Lula, mas que se expandiu a partir das manifestações de 2013, no governo Dilma (Guerra híbrida e neogolpismo: geopolítica e luta de classes no Brasil (2013-2018), Mateus Mendes, 1ª Edição, São Paulo, 2022).

A prática estende-se ao continente americano e, quiçá, um destes dias à Europa, com a subida mais do que confirmada da extrema-direita em todo o continente. Bolsonaro – tal como Trump, Ventura, Le Pen, Orban e outros – integra um certo ressurgimento de uma extrema-direita que esteve adormecida, durante décadas, no Ocidente. E estas ideias vingam e trazem votos. Tudo isto tem uma causa que é a corrupção, o tráfico de influências, o favorecimento justificado a grandes empresas – e está mais que visto – não conseguindo as pessoas ver que o discurso apelativo que se apresenta não tem consonância com a realidade, porque o único objectivo é atingir o poder. E uma vez atingido passam a actuar da mesma forma – ou pior – do que os outros, sendo que uma grande parte é financiada de forma principesca, para os financiadores logo que cheguem ao poder receberam as benesses devidas. O mesmo se passa no nosso País. E a ameaça à Democracia não vem apenas dos extremismos de direita, mas também de quem apoia e financia autocracias, teocracias, e regimes ditatoriais de extrema-esquerda.

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